Monday, July 13, 2009

O poder da existência

Ando pensando no que Sartre disse a respeito da existência humana como definidora do próprio homem. Para ele somos o que a nossa própria vida nos fez, é como não tivéssemos essência mas fossemos frutos da nossa existência. Para ficar mais claro, o que você é hoje é porque viveu o que viveu, se tivesse vivido outra vida seria outra pessoa. Cada pessoa é fruto das suas decisões e nesse caso, para Sartre, o homem é condenado à sua própria liberdade, quando a tem, pois até quando abre mão de decidir está decidindo, sendo ele o único responsável pela vida que tem!
Embora questione alguns das afirmações acima pois aceitá-la tal como Sartre propôs negaria realidades que considero verdadeiras como as espirituais, daí o ateísmo sartreano, considero pertinente a reflexão da influência da existência sobre a nossa essência, ou seja, quem nós somos.
O que faz alguém tomar uma decisão de não se corromper com o crime organizado numa favela carioca, por exemplo, enquanto o seu irmão nascido na mesma casa e vivendo no mesmo lugar caia na marginalidade? Por que hoje determinadas coisas que nos eram indispensáveis antigamente, ou nos tentavam como irresistíveis outrora hoje não carregam em si qualquer significado que nos faça correr atrás das mesmas? Por que aquela pessoa que antes admirávamos e com quem fizemos tantos planos hoje nos parece tão distante de nós ao ponto de parecer nunca ter nos conhecido?
A nossa existência se dá a partir das nossas decisões. Essas decisões abrem e fecham portas no nosso mundo. É como se estivéssemos sempre plantando algo que colheremos depois! No caso dos dois favelados quando um toma a decisão de ceder ao crime, por características pessoais e situação específica, este entra num caminho de distanciamento do outro trilhado pelo que não cedeu. Não existe volta! Caminhamos sempre pra frente! Se nos arrependemos temos que encontrar um novo caminho e carregaremos nele a experiência vivida por onde passamos.
Durante esse processo as coisas mudam de valor e as pessoas, é claro, mudam. Dessa forma Sartre tem razão em atribuir a existência a formação do nosso ser. Estamos sempre nos contruindo a partir das nossas experiências. Conversando com uma amiga pude percerber isso na história de reconciliação que me contou que teve com um primo com quem não falava a anos. Ao mesmo tempo algo da nossa essência parece permanecer (ele é o mesmo doido só cortou o cabelo!) a maturidade ganha com o tempo cria as condições para atitudes que outrora não adimitíamos (ele me pediu perdão e vi o quanto o amava!).
Quem não reconhece ou vive essa mudança estaciona no tempo, não evolui. Aí fica-se chato, uma eterna reprise e perde-se todos os atrativos que advém da novidade. Aí a paixão morre e não se renova nunca!
Quem pensa que somos os mesmos deveria pensar nas coisas que antes lhe eram caras e hoje você não dá importância alguma e vice-versa.
Fico triste quando alguém me julga por algo que fiz a muito tempo. Aquele que fez já não existe mais, como a água que tocamos no rio em um determinado instante, noutro seria outra. Como disse o saudoso Raul Seixas, somos uma metamoforse ambulante. Provo o que digo quando não faço o que fiz estando na mesma situação. Ora se não faço mais o que antes fazia, é sinal que mudei mas como saber senão me conhecendo hoje? Portanto, um aviso aos julgadores de plantão: a vida muda a gente e de repente não somos quem eles pensam. Só eles não mudam, pois para que isso aconteça é preciso viver e conhecer o novo ... e eles vivem no e do passado!

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