Resolvi ter um blog para falar da vida como eu a vejo, em prosa e verso, sempre ...
Friday, December 31, 2010
Virada de ano
Coisas a se fazer antes de morrer:
Passar um reveillon em Copacabana ... Feito!
Ao lado dos que amo ... ops, dessa vez não deu ... e fez falta!
Quem sabe ano que vem?
Sunday, December 26, 2010
Projeto Verão
Desisto! Não resisti aos apelos de Ipanema para que eu entre em forma. É muita gente sarada e bonita desfilando por aqui! Não dá pra não ficar encabulado com um pneuzinho aqui e outro acolá. Academia de graça na praia com aulas e tudo mais, mil e um motivos para dar uma corridinha na praia, desde o visual do arpoador até as beldades que vez por outra a gente topa (força da expressão que fique claro!), sem acreditar no que está vendo. Enfim, não tenho desculpas e me imbuí do espírito carioca do verão com tudo em cima para dar uma melhorada no condicionamento físico.
Vou aproveitar também para acertar o passo num curso de dança de salão assim junto o útil ao agradável. Fico em forma e me divirto.
Só não vou entrar nessa de tatuagem. Nunca vi povo mais tatuado. É como diz meu mano Percio “parece que sentem um prazer de tornarem um quadro ambulante pra todo mundo ver”, e eu complemento; mesmo que a moldura esteja, digamos, meio sem forma. Sim, porque pra se ver a tatuagem se olha pro corpo e as vezes isso é tão penoso. Acho que vira mania. Começa com uma, depois outra, quando se vê está o corpo todo cheio de mensagens que depois podem perder o significado mas estarão lá para lembrá-los do quanto lhes moveu a paixão.
Se um dia me tatuasse colocaria motivos relacionados ao amor e não a paixão. Meus filhos e Deus são os candidatos naturais das homenagens. Quanto às mulheres já nos marcam o coração e a alma, não precisam que nos marquem a pele também de forma que não as esqueçamos jamais!
Saturday, December 25, 2010
Thursday, December 23, 2010
Mensagem de Natal
Esse ano não terei a companhia dos filhos no Natal. Não é a primeira vez mas talvez nunca quis tanto tê-los perto. Acho que quando convivia com eles não os tinha tão próximos a mim como os tenho hoje, mesmo distante. Daí porque o Natal esse ano me faz refletir num monte coisas. Primeiro, muitos terão o privilégio que não terei e se reunirão em família ao redor de uma mesa farta, a ceia de natal. Também me reunirei em família, de gente maravilhosa que Deus me deu, mas por mais queridos que sejam não substituirão o estar com os filhos no natal. No entanto muitos também não reflitirão o quão abençoados são os que podem repetir esse momento todos os dias do ano, mesmo sem presentes mas com presença, principalmente na vida dos próprios filhos.
Segundo, muitos não terão ceia, pois mal terão o que comer. No entanto o natal poderá significar a esperança do re-nascimento e da sobrevivência por meio da atitude de alguém que realmente entendeu o espírito da ocasião.
Terceiro, Cristo certamente não nasceu nessa época e a data, originalmente uma comemoração pagã do deus sol. O dia 25 foi aproveitado por Constantino no sincretismo religioso e político que se tornou a igreja romana bem como todo o cristianismo que dela se derivou. No entanto, lembrar de um menino numa manjedoura sendo esse menino simplesmente Emanuel – Deus conosco faz a gente pensar como Deus é simples, e como tem dificuldades de encontrar um berço, e acaba nascendo nos lugares mais humildes, para nos mostrar que um coração altivo e soberbo nunca o verá.
Dessa forma, viver o natal não é festejar a família, como muitos pensam, nem fazer a alegria dos lojistas gastando seu décimo terceiro, mas reconhecer-se manjedoura na qual Jesus possa deitar e descansar. É esse o meu desejo pra mim, e o que quero pra mim quero para todos os meus amigos e irmãos.
Amém
Sunday, December 19, 2010
Causos de Ipanema
Andava eu pela Visconde de Pirajá fazendo pesquisa de preço para comprar uma cama, já que a duas semanas durmo em um colchonete e já estou me acostumando com a dureza do chão. Antes que isso acontecesse e, atendendo o pedido do meu amigo e colega de moradia, que encerrasse de vez essa vida de acampante e me estabelecesse morador do apartamento que divido com ele.
Após achar uma loja de colchões estava a procura de uma outra para comparar o preço que achara quando resolvi perguntar a uma cabeleireira que tinha dado uma pausa no trabalho para fumar na calçada.
- A senhora saberia me dizer onde encontro uma outra loja de colchões? – perguntei.
- Você tem celular com internet? – sua resposta não poderia ter me causado mais surpresa. Me limitei a responder;
-Sim.
- Então entra na galeria, tem internet free (Wi-fi), consulta lá os preços e ai você já vê endereço e tudo mais. Euzinha mesmo não sei de outra loja por aqui não.
Atônito com a resposta da mulher tive vontade de dizer-lhe que o especialista em TI (tecnologia da informação) ali era eu mas se é uma coisa que aprendi é reconhecer quando alguém fala algo irrefutavelmente certo. E lá fui eu para onde teria que ter ido primeiro ... à Internet!
Sunday, December 12, 2010
Primeira semana no Rio
O que vou dizer dessa primeira semana? Que o Rio é lindo, a cidade mais bonita do mundo é senso comum. Que essa beleza se completa com as pessoas que desfilam por aqui, é fato. Descrever a beleza das cariocas é entender o porque da “garota de Ipanema” e tantas outras músicas que a exaltaram e a razão dos poemas de Vinícius de Moraes, que tanto a declamaram.
Mas o que marcou mesmo minha primeira semana foram os reencontros. Primeiro os da Oi que possui nos seus quadros no Rio vários colegas como quem já trabalhei. Entre eles, está o meu chefe e amigo pessoal Sergio com quem aprendi desde cedo de que chefia não impede a amizade, na contramão do que os RHs de hoje em dia preconizam. Chamam-no hoje de paternalista por defender a equipe ter com ela um bom relacionamento com os mesmos, coisas que aprendi com o ele serem obrigatórias de um verdadeiro lider.
Outro reencontro especial foi com o meu quase irmão, amigo de adolescência, Percio Campos por quem nutria uma saudade e uma vontade de rever que foi satisfeita esse final de semana.
O Rio está prometendo muito...e eu adorando tudo isso!
Monday, November 29, 2010
Bye, Bye Belém!
Sexta passada deixei Belém em definitivo rumo ao Rio de Janeiro. Mudança esta acompanhada de várias outras que sei, me mudarão por dentro novamente. Nos últimos anos tem sido assim. Mudo e algo muda dentro em mim no processo da mudança!
Ficar em Belém esse ano foi muito bom apesar da distância dos filhos e a falta de um amor do lado.
Deixo novos amigos, alguns especiais, na certeza que sempre haverá festa nos nossos reencontros. Festa, que por sinal, não me faltou por lá.
Obrigado Belém por tudo!
Vamos ver o que nos espera de agora em diante ...
Espero o melhor!
Ficar em Belém esse ano foi muito bom apesar da distância dos filhos e a falta de um amor do lado.
Deixo novos amigos, alguns especiais, na certeza que sempre haverá festa nos nossos reencontros. Festa, que por sinal, não me faltou por lá.
Obrigado Belém por tudo!
Vamos ver o que nos espera de agora em diante ...
Espero o melhor!
Saturday, November 20, 2010
Paz
De repente, a paz tomou uma importância maior
E eu vi que não a tinha
A ansiedade a tomara
Num momento, já não existia.
Mas nessa hora uma palavra
Um alerta veio-me à mente
Não dá pra deixar de ser gente
Mas dá pra entregar o caminho
O que quero
Desejo
Espero
Preciso
Virá quando não esperar
E não mais pensar nisso
E eu vi que não a tinha
A ansiedade a tomara
Num momento, já não existia.
Mas nessa hora uma palavra
Um alerta veio-me à mente
Não dá pra deixar de ser gente
Mas dá pra entregar o caminho
O que quero
Desejo
Espero
Preciso
Virá quando não esperar
E não mais pensar nisso
Memória
Monday, November 15, 2010
Estou mordido!
Não, não estou com raiva, não! Pelo menos não que eu saiba. Fui só mordido por um cachorro hoje.
A coisa aconteceu na praia da ilha de Mosqueiro, perto de Belém. Naturalmente, uma tentativa de fazer o meu feriado algo diferente. Tentativa bem sucedida, diga-se de passagem! Mal pus os pés na praia me dispus a fazer uma caminhada, coisa que gosto de fazer, para conhecer o local antes de comer alguma coisa de almoço. No meio da bendita caminhada sou surpreendido por trás (além de cachorro era covarde!) por um cachorro que parece ter confundido meu tornozelo com algum osso que gosta muito ou tava com raiva de mim.
Se tava com raiva ela passou pra mim instantaneamente pois assim que livrei minha perna da boca dele parti pra cima do infeliz que nem o Tarzan, gritando mais alto do que ele latia. Não me pergunte por que fiz isso. Acho que ele não me inspirou medo. Foi como se eu dissesse pra ele: Vai encarar? Ele desistiu e foi embora.
Depois foi uma romaria entre hospital, onde fiz os curativos no tornozelo, e o posto de saúde onde tomei a primeira dose da vacina anti-rábica. Vai dizer que não foi diferente o meu feriado?
A coisa aconteceu na praia da ilha de Mosqueiro, perto de Belém. Naturalmente, uma tentativa de fazer o meu feriado algo diferente. Tentativa bem sucedida, diga-se de passagem! Mal pus os pés na praia me dispus a fazer uma caminhada, coisa que gosto de fazer, para conhecer o local antes de comer alguma coisa de almoço. No meio da bendita caminhada sou surpreendido por trás (além de cachorro era covarde!) por um cachorro que parece ter confundido meu tornozelo com algum osso que gosta muito ou tava com raiva de mim.Se tava com raiva ela passou pra mim instantaneamente pois assim que livrei minha perna da boca dele parti pra cima do infeliz que nem o Tarzan, gritando mais alto do que ele latia. Não me pergunte por que fiz isso. Acho que ele não me inspirou medo. Foi como se eu dissesse pra ele: Vai encarar? Ele desistiu e foi embora.
Depois foi uma romaria entre hospital, onde fiz os curativos no tornozelo, e o posto de saúde onde tomei a primeira dose da vacina anti-rábica. Vai dizer que não foi diferente o meu feriado?
O tempo e as jabuticabas

'Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver
daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela
menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela
chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir
quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos
para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem
para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir
estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas,
que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões
de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo
majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas
não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a
essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente
humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta
com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não
foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados,
e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse
O essencial faz a vida valer a pena.
Rubem Alves
Saturday, November 13, 2010
O homem é um espanto!
Quanto mais me relaciono e conheço gente fico espantado com o ser humano. Com a capacidade de amar e de desprezar o amor. Com a capacidade de usar de sabedoria, e aprender com ela, mas também de confundi-la com conhecimento. De fugir da melancolia em festas sem fantasia alguma mas onde todos usam máscaras. Só o homem é capaz de apaixonar-se perdidamente por alguém e anos depois ver aquela pessoa com a indiferença dos desconhecidos. Só ele, pode viver a fama e a glória numa hora e se tornar depois esquecido.É o homem ... esse desconhecido.
Mas o que mais me surpreende é quando ouço a verdade e a justiça saírem de lábios "suspeitos" e a mentira de bocas "santas". Quando julgamos os que expõem suas fraquezas e louvamos os que as escondem.
Realmente, essa contradição que é o ser humano realmente me espanta!
Saturday, November 06, 2010
Lembranças de Airton Senna
Nesse domingo teremos Grande Prêmio Brasil de Formula 1. Sou um viciado em formula que acompanho desde o final dos anos 70. Acompanhei, portanto o nascimento e crescimento de um fenômeno das pistas que se tornou, na opinião de muitos com eu, o maior piloto de todos os tempos: Airton Senna da Silva!
Essa semana mais um documentário sobre a sua vida estréia nos cinemas, que devo assistir assim que possível (vide trailer abaixo).
Airton foi um ícone do esporte e alguém muito especial para mim e para milhares de brasileiros que acompanharam sua carreira e lhe devotaram uma admiração sem igual. Existia nele uma obstinação pela vitória e uma capacidade de desafiar limites que nos inspirava todas as manhãs de domingo, quando acompanhávamos as suas maravilhosas performances nas pistas de todo mundo. Sua paixão pela velocidade contaminou o pais e nos tornamos também apaixonados por Formula 1, e por ele.
Airton tinha fé mística em Deus e chegou certa vez a dizer que o tinha visto em uma visão quando cruzara a linha de chegada de uma corrida. Sua obstinação em conseguir o que queria e em vencer gerava em nós uma ilusão de que nos representava, de alguma forma, nas suas conquistas. De certa forma, ao erguer a bandeira nacional após cada vitória ele incorporava e alimentava esse sentimento, como também ao nos incluir nas suas vitorias dizendo "a gente" tinha que vencer desta vez, como fazia.
No entanto, em 1 de maio de 1994, participava de uma feijoada patrocinada pela igreja em que era membro na época quando recebemos a noticia da confirmação da morte do Airton. É impressionante que me lembro da data, das circunstancias, do acidente, de tudo como se tivesse ocorrido com alguém próximo e muito querido. Mas era assim que o víamos. Foi um choque, e traumas assim são difíceis de esquecer.
É certo, e muitos analistas esportivos irão concordar comigo, que Michael Schumacher, o maior campeão e vencedor das pistas de formula 1, não teria metade das vitórias que teve se Senna tivesse prosseguido na sua carreira. Até aquele domingo, Schumacher havia vencido Senna mas nunca tinha conseguido uma pole-position em disputa direta com ele, mesmo com um carro, na época superior ao do Airton. Foi, alías, a frente de Schumacher que ele encontrou a, depois do acidente, famosa curva Tamburello do circuito de Ímola da Itália. Uma tragédia de alguma forma pressentida pelo próprio Airton num final de semana cheio de acidentes, mas não evitada. Na sexta o piloto austríaco Roland Ratzenberger havia morrido nos treinos de classificação. No mesmo, o jovem Rubens Barrichello também se acidentara e a corrida começou também com um acidente na largada que pode ter contribuído também para morte do grande campeão das pistas (vide vídeo).
O saldo da sua morte pode ser contabilizado pelas modificações ocorridas nos carros de formula 1 e circuitos a partir daí. Hoje uma acidente fatal na categoria é algo infinitamente mais difícil de acontecer que naquela época tal a segurança hoje imposta. O circuito de Imola foi modificado bem como vários circuitos visando o aumento da segurança. Os carros ganharam células de sobrevivência que são incrivelmente eficientes.
Pra mim, o Airton nos deixou uma lição de que, quando desafiamos os nossos limites, é possível vencê-los com aplicação e talento. No entanto, é preciso saber que somos homens e não deuses, portanto mortais e falhos. O erro, a fatalidade, a nossa Tamburello pode nos encontrar quando menos esperarmos e é preciso estarmos prontos para ela.Foi-se o homem e ficou o mito que mesmo depois de 16 anos continuamos a celebrar.
Tuesday, November 02, 2010
A fórmula da felicidade III
Comecei a escrever sobre o tema da felicidade como uma necessidade de por pra fora um turbilhão de idéias e convicções que explodiram a medida que li a introdução do livro de Zigmunt Bauman – A arte da vida. Os que lerem o livro irão reconhecer algumas das idéias nele contidas no primeiro texto, mas não todas nem da forma como as expus. Minha intenção é realizar uma síntese a partir das minhas reflexões sobre o assunto a partir do que leio e de como interpreto o que leio.
Nesse texto, sequência do anterior, e que já antecipo não será conclusivo, convido você a fazer a mesma coisa. Refletir acerca da felicidade a partir do que ler nos próximos parágrafos.
Concluímos o texto anterior com algumas perguntas:
O que é felicidade? Como obtê-la?
Vamos tentar avançar na resposta dessas perguntas partindo de um argumento filosófico, o de que a felicidade é uma construção individual. Assim sendo, a felicidade sob o ponto de vista de uma Madre Tereza de Calcutá ou de um Gandhi, por exemplo, terá diferenças significativas com a da Madona, Angelina Julie ou qualquer outro ícone pop atual. Não obstante, existirão traços comuns entre estas construções, frutos das escolhas tomadas por cada uma das pessoas citadas. O que estou tentando dizer é que a mesma atitude ou vivência relacional traz sentimentos e sensações semelhantes em todos nós, por exemplo, uma ajuda sincera ao semelhante gera uma satisfação universal em qualquer ser humano que contribui para a felicidade do outro. No entanto, abrir mão dos próprios interesses imediatos, e do seu tempo pra ser simples, e fazê-lo pode ser uma decisão difícil para muitos de nós.
Para entender o que significa felicidade, precisaremos primeiramente definir se ela é, para nós, um estado de espírito, ou a soma de momentos ou episódios felizes.
Se optarmos pela primeira opção estaremos na companhia dos filósofos clássicos. Aristóteles, por exemplo, acreditava que este estado era obtido pela obtenção de bens "internos" e "externos", cuja lista teria fundamentação empírica e poderia ser relatada por todos os cidadãos de Atenas, como: bom berço, muitos amigos, bons amigos, riqueza, bons filhos, saúde e por ai vai. Essa é a mesma concepção de quem pensa hoje, se eu tivesse isso ou aquilo seria feliz. O fato é que o sentimento de felicidade ou contentamento com a própria vida, por aqueles que o professam, em sua maioria independe da lista de bens que possuem. Existem pessoas ricas de tudo no mundo e pobres de felicidade e vice-versa. No entanto, a concepção aristotélica de um estado de felicidade contínuo e permanente, a partir do alcance de determinado patamar, acompanhou o pensamento humano ao longo dos séculos e é o prometido pela maioria dos discursos religiosos. Contemporaneamente esse "estado de felicidade" tem sido trocado pela "busca de felicidade", nas palavras de Tocqueville, "a felicidade é uma qualidade que se retira diante deles sem sair de vista, e ao se retirar acena para a busca. A cada instante eles pensam que conseguirão capturá-la, e a cada vez ela escorregará por entre seus dedos" (Alexis de Tocqueville, Democracy in America, New York, Harper,1988, p. 538). Em suma, o casal tem tudo pra ser feliz, casa própria, carro, bons empregos, filhos maravilhosos, ótimo padrão social, enfim tudo que todos parecem buscar a vida toda e, no entanto, se separam, pois estão infelizes. Falta-lhes a busca que o mantinham vivos. Quando chegaram onde miraram chegar permanecer ali é um tormento de monotonia. Tocquevilhe, na mesma análise sobre a sociedade americana, complementa; " essa é a razão da estranha melancolia que frequentemente assombra os habitantes das democracias em meio a abundância, e daquele desgosto pela vida que por vezes toma conta deles em condições de calma e tranqüilidade".
Fico imaginando que para o homem moderno a idéia de um céu, conforme retratada no livro de Apocalipse, pode parecer pouco atrativa. Diriam: Tá bom, quis a vida toda chegar aqui mas será que não tem um outro lugar menos tranqüilo (e mais emocionante) pra gente ir nos finais de semana pra variar? O céu só é maravilhoso, para ele, enquanto não se chega lá. Como disse Cazuza: "O tédio é o sentimento mais moderno que existe". No céu, esse homem, dado que seu coração (e sua essência) não mude, terá saudade da terra ou irá querer fazer algumas modificações no cotidiano celestial.
Essa insatisfação contínua nos é típica e é o motivo principal dos nossos esforços de construção e desenvolvimento humano. Corremos, porém uma corrida cuja a linha de chegada é conhecida e pouco atraente, a não ser para os que a encaram com fé na continuidade da caminhada após cruzarem a mesma, fazendo da própria corrida um fim em si, de forma que tolo é quem não aproveita para apreciar a paisagem durante a jornada.
Na contramão dos que sonham com o estado de felicidade permanente estão os que se contentam com uma sucessão de "momentos felizes". Estes são mais sensoriais e optam pelo transitório, mas que se possa usufruir hoje, que o eterno que nunca chega ou chegará, pelo menos para eles. Assim, relacionamentos intensos mesmo que curtos são preferíveis que relações duradouras, mas mornas. Não se tem intenção de construir nada mas aproveitar cada segundo da vida como se fosse o último. Muito embora sejam cônscios da brevidade dos prazeres que buscam, preferem gozá-los que passar a existência numa busca pelo eterno. É a forma de pensar adotada pelo autor de Eclesiastes, o rei Salomão, ao dizer: "Disse comigo: vamos! Eu te provarei com alegria; goza, pois, a felicidade; ... tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei meu coração de alegria alguma ...". No entanto, a conclusão dele sobre essa busca é a mesma que teve com relação a de que a felicidade viria pela construção de algo permanente, uma grande obra por exemplo, de que tudo no final "era vaidade e correr atrás do vento" – Ec 2.
Depois dessa afirmação pessimista desse expoente bíblico que praticamente esgotou todas as formas de busca humana de significado do que vem a ser felicidade, inclusive a própria busca de sabedoria, ficamos num impasse. A felicidade é uma meta individual comum a todos nós, seja ela explicitamente declarada ou não. No entanto, somos avessos a pontos de chegada e nos sentirmos contentes com o que temos, ao mesmo tempo que gozar a vida sem um propósito claro, um sonho, um objetivo, nos parece irracional e fútil para a maioria de nós, mesmo que ao alcançá-lo precisemos de outro, já que o anterior perdeu sua significância.
Sem querer concluir, como falei antes, mas tentando fechar esse texto, me parece que a felicidade está mais próxima de quem consegue entender e aceitar essas duas realidades da vida. Primeiro a de que nada que conquistemos nos fará mais felizes que o ato de conquistá-las e todo o processo aí envolvido e, segundo, que nada estragará mais a nossa felicidade que a ansiedade com relação ao que não se tem. Saber gozar a vida dentro das suas possibilidades e relacionamentos atuais é uma arte. Nesse espetáculo que é a vida humana, em sua breve passagem por esse mundo, somos ao mesmo tempo autores e atores principais das nossas próprias peças, que escrevemos com as nossas ações e sentimentos do dia a dia. Nossas obras poderão influenciar e ajudar muitos nas suas jornadas e, como todo artista, nos deliciaremos com o aplauso, como uma confirmação de que fizemos bem o que tínhamos de fazer. Ser feliz, porém, é saber dar importância ao que é importante, que normalmente não custa mais que uma atitude, e através disso trazer a outros, e não só a si próprio, essa sensação de felicidade. Assim, o contentamento do ator advindo do aplauso vem também porque o público ficou feliz com a sua atuação, ou seja, ele contribuiu para a felicidade da platéia, nem que seja por um momento. Este momento, porém é único para ambos e vale toda a pena.
Façam as suas escolhas, mas sejam felizes fazendo-as! A responsabilidade sobre a sua felicidade está nas suas mãos.
Belém, 02/11/10
Nesse texto, sequência do anterior, e que já antecipo não será conclusivo, convido você a fazer a mesma coisa. Refletir acerca da felicidade a partir do que ler nos próximos parágrafos.
Concluímos o texto anterior com algumas perguntas:
O que é felicidade? Como obtê-la?
Vamos tentar avançar na resposta dessas perguntas partindo de um argumento filosófico, o de que a felicidade é uma construção individual. Assim sendo, a felicidade sob o ponto de vista de uma Madre Tereza de Calcutá ou de um Gandhi, por exemplo, terá diferenças significativas com a da Madona, Angelina Julie ou qualquer outro ícone pop atual. Não obstante, existirão traços comuns entre estas construções, frutos das escolhas tomadas por cada uma das pessoas citadas. O que estou tentando dizer é que a mesma atitude ou vivência relacional traz sentimentos e sensações semelhantes em todos nós, por exemplo, uma ajuda sincera ao semelhante gera uma satisfação universal em qualquer ser humano que contribui para a felicidade do outro. No entanto, abrir mão dos próprios interesses imediatos, e do seu tempo pra ser simples, e fazê-lo pode ser uma decisão difícil para muitos de nós.
Para entender o que significa felicidade, precisaremos primeiramente definir se ela é, para nós, um estado de espírito, ou a soma de momentos ou episódios felizes.
Se optarmos pela primeira opção estaremos na companhia dos filósofos clássicos. Aristóteles, por exemplo, acreditava que este estado era obtido pela obtenção de bens "internos" e "externos", cuja lista teria fundamentação empírica e poderia ser relatada por todos os cidadãos de Atenas, como: bom berço, muitos amigos, bons amigos, riqueza, bons filhos, saúde e por ai vai. Essa é a mesma concepção de quem pensa hoje, se eu tivesse isso ou aquilo seria feliz. O fato é que o sentimento de felicidade ou contentamento com a própria vida, por aqueles que o professam, em sua maioria independe da lista de bens que possuem. Existem pessoas ricas de tudo no mundo e pobres de felicidade e vice-versa. No entanto, a concepção aristotélica de um estado de felicidade contínuo e permanente, a partir do alcance de determinado patamar, acompanhou o pensamento humano ao longo dos séculos e é o prometido pela maioria dos discursos religiosos. Contemporaneamente esse "estado de felicidade" tem sido trocado pela "busca de felicidade", nas palavras de Tocqueville, "a felicidade é uma qualidade que se retira diante deles sem sair de vista, e ao se retirar acena para a busca. A cada instante eles pensam que conseguirão capturá-la, e a cada vez ela escorregará por entre seus dedos" (Alexis de Tocqueville, Democracy in America, New York, Harper,1988, p. 538). Em suma, o casal tem tudo pra ser feliz, casa própria, carro, bons empregos, filhos maravilhosos, ótimo padrão social, enfim tudo que todos parecem buscar a vida toda e, no entanto, se separam, pois estão infelizes. Falta-lhes a busca que o mantinham vivos. Quando chegaram onde miraram chegar permanecer ali é um tormento de monotonia. Tocquevilhe, na mesma análise sobre a sociedade americana, complementa; " essa é a razão da estranha melancolia que frequentemente assombra os habitantes das democracias em meio a abundância, e daquele desgosto pela vida que por vezes toma conta deles em condições de calma e tranqüilidade".
Fico imaginando que para o homem moderno a idéia de um céu, conforme retratada no livro de Apocalipse, pode parecer pouco atrativa. Diriam: Tá bom, quis a vida toda chegar aqui mas será que não tem um outro lugar menos tranqüilo (e mais emocionante) pra gente ir nos finais de semana pra variar? O céu só é maravilhoso, para ele, enquanto não se chega lá. Como disse Cazuza: "O tédio é o sentimento mais moderno que existe". No céu, esse homem, dado que seu coração (e sua essência) não mude, terá saudade da terra ou irá querer fazer algumas modificações no cotidiano celestial.
Essa insatisfação contínua nos é típica e é o motivo principal dos nossos esforços de construção e desenvolvimento humano. Corremos, porém uma corrida cuja a linha de chegada é conhecida e pouco atraente, a não ser para os que a encaram com fé na continuidade da caminhada após cruzarem a mesma, fazendo da própria corrida um fim em si, de forma que tolo é quem não aproveita para apreciar a paisagem durante a jornada.
Na contramão dos que sonham com o estado de felicidade permanente estão os que se contentam com uma sucessão de "momentos felizes". Estes são mais sensoriais e optam pelo transitório, mas que se possa usufruir hoje, que o eterno que nunca chega ou chegará, pelo menos para eles. Assim, relacionamentos intensos mesmo que curtos são preferíveis que relações duradouras, mas mornas. Não se tem intenção de construir nada mas aproveitar cada segundo da vida como se fosse o último. Muito embora sejam cônscios da brevidade dos prazeres que buscam, preferem gozá-los que passar a existência numa busca pelo eterno. É a forma de pensar adotada pelo autor de Eclesiastes, o rei Salomão, ao dizer: "Disse comigo: vamos! Eu te provarei com alegria; goza, pois, a felicidade; ... tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei meu coração de alegria alguma ...". No entanto, a conclusão dele sobre essa busca é a mesma que teve com relação a de que a felicidade viria pela construção de algo permanente, uma grande obra por exemplo, de que tudo no final "era vaidade e correr atrás do vento" – Ec 2.
Depois dessa afirmação pessimista desse expoente bíblico que praticamente esgotou todas as formas de busca humana de significado do que vem a ser felicidade, inclusive a própria busca de sabedoria, ficamos num impasse. A felicidade é uma meta individual comum a todos nós, seja ela explicitamente declarada ou não. No entanto, somos avessos a pontos de chegada e nos sentirmos contentes com o que temos, ao mesmo tempo que gozar a vida sem um propósito claro, um sonho, um objetivo, nos parece irracional e fútil para a maioria de nós, mesmo que ao alcançá-lo precisemos de outro, já que o anterior perdeu sua significância.
Sem querer concluir, como falei antes, mas tentando fechar esse texto, me parece que a felicidade está mais próxima de quem consegue entender e aceitar essas duas realidades da vida. Primeiro a de que nada que conquistemos nos fará mais felizes que o ato de conquistá-las e todo o processo aí envolvido e, segundo, que nada estragará mais a nossa felicidade que a ansiedade com relação ao que não se tem. Saber gozar a vida dentro das suas possibilidades e relacionamentos atuais é uma arte. Nesse espetáculo que é a vida humana, em sua breve passagem por esse mundo, somos ao mesmo tempo autores e atores principais das nossas próprias peças, que escrevemos com as nossas ações e sentimentos do dia a dia. Nossas obras poderão influenciar e ajudar muitos nas suas jornadas e, como todo artista, nos deliciaremos com o aplauso, como uma confirmação de que fizemos bem o que tínhamos de fazer. Ser feliz, porém, é saber dar importância ao que é importante, que normalmente não custa mais que uma atitude, e através disso trazer a outros, e não só a si próprio, essa sensação de felicidade. Assim, o contentamento do ator advindo do aplauso vem também porque o público ficou feliz com a sua atuação, ou seja, ele contribuiu para a felicidade da platéia, nem que seja por um momento. Este momento, porém é único para ambos e vale toda a pena.
Façam as suas escolhas, mas sejam felizes fazendo-as! A responsabilidade sobre a sua felicidade está nas suas mãos.
Belém, 02/11/10
Monday, November 01, 2010
Comer, Rezar e Amar – O outro lado da moeda
Li a pouco numa revista um artigo sobre o filme bem diferente do usual que me fez refletir nos nossos paradigmas de pensamento. Paradigma é uma janela pela qual vemos o mundo. A questão é que dependendo da posição da janela, altura e tamanho, o mundo visto por ela pode ficar bem limitado. Pois bem, imagine o seguinte; você não sabe nada do filme ou do livro e eu lhe conto a seguinte história:
Um jovem professor de direito em meio a uma crise existencial resolve por fim a seu casamento com sua mulher escritora e sair pelo mundo em busca de alivio para seu dilema interior. Vai para Itália, conhece novos amigos, desfruta dos prazeres da mesa, depois passa um período na índia procurando elevo espiritual e por fim passa uma temporada em Bali onde encontra uma latina "caliente" por quem se apaixona e se casa.
Agora me diga; você pagaria 200 mil dólares pelos direitos de publicação de uma história assim? No mínimo minhas amigas leitoras ficariam revoltadas com essa história e com pena da "coitadinha" da esposa, não interessando a contribuição da mesma para o fim do casamento, mesmo se ela fosse descrita como egocêntrica voltada somente para os seus projetos pessoais, seu novo livro, por exemplo.
Troque o papeis e o que temos? Um sucesso editorial e um filme inspirador.
Michel Cooper, o professor egocêntrico retratado por Liz Gilbert, com quem foi casada, conta em seu livro "Displaced", que nunca chegará por razões óbvias ao sucesso de "Eat, Pray, Love" da sua sua ex, como foi sua peregrinação após um divórcio que, segundo ele, o destruiu emocionalmente. O nosso professor "egoísta" é um ativista dos direitos humanos e se "encontrou" participando de missões em países com conflitos armados ou vítimas de desastres naturais como Kosovo, Mongolia, Iran e Iraque, roteiro turístico convenhamos bem menos atraente que o de Liz.
Não sei ao certo se numa dessas missões apaixonou-se novamente dessa vez por uma diplomata canadense, Béatrice Maillé, com quem tem hoje dois filhos.
Calma meninas! Não estou tentando crucificar ninguém! Continuo adorando o filme e a história contada por Liz Gilbert.
Só queria abrir uma janela do outro lado da casa ... onde os homens não são os únicos egoístas desse mundo, sofrem com as separações (e não só caem na diversão quando isso acontece!) e demoram a reconstruir suas vidas abaladas pelo episódio. Não interessa o que tenha realmente acontecido entre os dois o fato é que encontraram um caminho melhor para ambos apesar de tudo.
Um jovem professor de direito em meio a uma crise existencial resolve por fim a seu casamento com sua mulher escritora e sair pelo mundo em busca de alivio para seu dilema interior. Vai para Itália, conhece novos amigos, desfruta dos prazeres da mesa, depois passa um período na índia procurando elevo espiritual e por fim passa uma temporada em Bali onde encontra uma latina "caliente" por quem se apaixona e se casa.
Agora me diga; você pagaria 200 mil dólares pelos direitos de publicação de uma história assim? No mínimo minhas amigas leitoras ficariam revoltadas com essa história e com pena da "coitadinha" da esposa, não interessando a contribuição da mesma para o fim do casamento, mesmo se ela fosse descrita como egocêntrica voltada somente para os seus projetos pessoais, seu novo livro, por exemplo.
Troque o papeis e o que temos? Um sucesso editorial e um filme inspirador.
Michel Cooper, o professor egocêntrico retratado por Liz Gilbert, com quem foi casada, conta em seu livro "Displaced", que nunca chegará por razões óbvias ao sucesso de "Eat, Pray, Love" da sua sua ex, como foi sua peregrinação após um divórcio que, segundo ele, o destruiu emocionalmente. O nosso professor "egoísta" é um ativista dos direitos humanos e se "encontrou" participando de missões em países com conflitos armados ou vítimas de desastres naturais como Kosovo, Mongolia, Iran e Iraque, roteiro turístico convenhamos bem menos atraente que o de Liz.
Não sei ao certo se numa dessas missões apaixonou-se novamente dessa vez por uma diplomata canadense, Béatrice Maillé, com quem tem hoje dois filhos.
Calma meninas! Não estou tentando crucificar ninguém! Continuo adorando o filme e a história contada por Liz Gilbert.
Só queria abrir uma janela do outro lado da casa ... onde os homens não são os únicos egoístas desse mundo, sofrem com as separações (e não só caem na diversão quando isso acontece!) e demoram a reconstruir suas vidas abaladas pelo episódio. Não interessa o que tenha realmente acontecido entre os dois o fato é que encontraram um caminho melhor para ambos apesar de tudo.
Sunday, October 31, 2010
A fórmula da felicidade - II
Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos
Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos
Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz
Friday, October 29, 2010
A fórmula da Felicidade - I
A felicidade, essa idealização que fazemos e pela qual acordamos todos os dias tem sido a grande promessa de várias entidades, sejam elas físicas ou não. Cito alguns exemplos:
O mercado – esta entidade, composta por todos os entes econômicos que disputam a nossa remuneração, nos vende, literalmente, a idéia da satisfação desse vácuo interior com substitutos relacionais. Explico, muito embora a sensação de felicidade esteja mais associada ao ser, ou a construção do ser (ou self), o mercado ameniza esse processo associando essa sensação ao ter. Assim, se você tem você pode comprar coisas que lhe deixem feliz até que o tempo daquela satisfação se esgote e você tenha que comprar algo mais, e depois outra coisa num ato contínuo e sem fim, que alimenta o próprio mercado.
"Numa sociedade de compradores e numa vida de compras, estamos felizes enquanto não perdermos a esperança de sermos felizes" – Zygmunt Bauman
Essa felicidade, vendida pelo mercado, traz no bojo algumas mensagens que contaminaram a nossa sociedade como um todo. Por exemplo, você não é o que você é, mas o que você usa ou tem. São os títulos e o dinheiro que lhe farão importante, lhe darão a atenção e o amor que necessita, ou pelo menos o sexo na pior das hipóteses. Mais ainda, as relações, como todas as de consumo, são utilitaristas e não prevêem grandes compromissos entre as partes. Assim, os amores tornam-se líquidos e breves, ou seja, a menos que a satisfação atual da relação se mantenha por si não se fará muito para mantê-la, afinal, nada é pra sempre e relação boa é a que me serve enquanto me serve, como tudo que consumo.
A religião – as organizações religiosas, cada uma com sua proposta de ligação com o transcendente, com Deus, seja lá como é definido por cada uma delas, têm também as suas receitas de felicidade intimamente relacionadas a algum tipo de conexão espiritual.
Assim como o mercado essas organizações cobram seu preço para viabilizarem esse santo graal; pode ser um sacrifício físico, a abstinência de um prazer, a negação de si mesmo, a anulação do desejo, o isolamento, enfim, qualquer outra coisa imposta como disciplina para se alcançar um elevo espiritual, uma integração com o divino, o desenvolvimento da vontade sobre a ansiedade e a concupiscência gerando em última instância paz interior, o grande segredo da felicidade para a maioria das propostas religiosas. Algumas porém, muito influenciadas pelo mercado aceitam o dinheiro também como facilitador do céu, fazendo o caminho estreito mais largo para os que tem mais "a dar".
Sendo bem objetivo, pelos propósitos desse texto, o trilhar desse caminho é individual, no entanto, a associação coletiva é quase inescapável trazendo para o religioso uma identidade, e expectativas relativas a mesma. Assim como no mercado você é o que tem, nesse mundo você é o que professa ou o que o grupo que participa professa. Para esses grupos a infelicidade individual é um pecado pode ser mal vista já que todos que participam desse grupo deveriam ser, em tese, felizes pois partilham da fonte da felicidade. E assim, quem adota esse caminho, muitas vezes reduz a sua construção dessa felicidade individual àquilo lhe é "vendido" pelo grupo que participa. Como a uma forma essa pessoa se "conforma" a forma e o jeito do modelo espiritual da religião que adotou. Nem sempre essa forma se encaixa plenamente e aí sobram duas alternativas; a hipocrisia ou o abandono daquele modelo.
A Paixão – apesar de vir do grego pathos, que significa excesso, catástrofe, passagem, passividade, e sofrimento, a paixão é uma das grandes vendedoras de felicidade no mundo. O apaixonado sofre e vicia-se nesse sentimento de forma que sem o mesmo, a vida torna-se menos colorida e mais sem graça. As paixões parecem dar sentido a vida. Do mesmo modo que o domingo é aguardado com ansiedade pelo apaixonado por futebol, o apaixonado pelo trabalho recolhe-se cedo nesse mesmo dia para que a segunda lhe chegue logo.
Isso sem falar nas paixões românticas, platônicas ou não. Essas tiram o sono, a fome e o próprio juízo. São egoístas e possessivas por natureza pois dizem respeito a vontade de ter o outro pra si. Ele é meu e ela é minha e de mais ninguém! O problema é quando os dois fazem desse desejo uma obsessão fazendo a vida girar em torno dessa relação como se ela não estivesse cheia de projeções e ilusões. A paixão que une os casais se não alimentada com boas doses de realidade e liberdade vira uma prisão e uma fuga tanto quanto são todos os vícios pois mexe com algo poderoso em nós que é o prazer, e em doses cavalares, muito embora seja diferente.
Os vícios como os relacionados ao sexo, à bebida, compras compulsivas, comida ou às próprias drogas, não vendem felicidade. Antes eles vendem uma fuga da infelicidade, o que é bem diferente, por meio do prazer como anestésico da dor de uma falta ou de um vazio interior. A paixão, porém, vende a ilusão que a felicidade é tê-la, senti-la, vive-la de forma a mais intensa possível. E ficamos todos a babar por esse convite! Como ela não dura muito, senão se apegar a realidade, a ordem é ser feliz enquanto ela dura.
Mas o que seria então a felicidade? Como obtê-la? Se o que nos vendem os entes acima citados não nos satisfazem plenamente o que falta naquilo que oferecem?
Deixo essas perguntas para o próximo texto, até para lhe dar mais tempo para refletir nelas.
Até lá.
Ido Alves
Sunday, October 24, 2010
Planos de governo
Ultima semana de eleição. Promessômetro ligado a toda, candidatos posando de salvadores da pátria, novos Cristos que ao invés da cruz sofrem ataques de bolinhas de papel e, pasmem, rolos de fita adesiva e vão parar no hospital. Muitas acusações de cada lado. Fica difícil limpar a ficha dos dois sem que um deles não desenterre alguma sujeira do outro. Esse é o debate político que nos restou nesse segundo turno. Da forma como são expostas, as propostas de ambos parecem sair de um fundo infinito de um pais com recursos bem maiores que o nosso. Quem sabe saibam onde encontrar esses recursos? Nós é que não sabemos.
Estava lendo um livro muito interessante hoje, "A arte da Vida – Zigmunt Bauman (Editora ZAHAR)", e me deparei com o seguinte discurso proferido pelo senador Robert Kennedy em 18 de março de 1968, em plena campanha presidencial, pouco antes de ser assasinado:
"Nosso PNB considera em seus cálculos a poluição do ar, a publicidade do fumo e as ambulâncias que rodam para coletar os feridos em nossas rodovias. Ele registra os custos dos sistemas de segurança que instalamos para proteger nossos lares e as prisões em trancafiamos os que conseguem burlá-los. Ele leva em conta a destruição da nossa florestas de sequóias e sua substituição por uma urbanização descontrolada e caótica. Ele inclui a produção de napalm, armas nucleares e dos veículos armados usados pela polícia para reprimir a desordem urbana. Ele registra ... programas de televisão que glorificam a violência para vender brinquedos a crianças. Por outro lado, o PNB não observa a saúde de nossos filhos, a qualidade de nossa educação ou a alegria de nossos jogos. Não mede a beleza de nossa poesia e a solidez de nossos matrimônios. Não se preocupa em avaliar a qualidade de nossos debates políticos e a integridade de nossos representantes. Não considera a nossa coragem, sabedoria e cultura. Nada diz sobre a nossa compaixão e dedicação a nosso país. Em resumo, o PNB mede tudo, menos o que faz a vida valer a pena."
Não pude deixar de aplaudir mais de quarenta anos depois tanta verdade proferida num discurso de campanha. Que diferença, pensei!
Nossos maiores problemas não são econômicos. Nossos maiores desafios têm a ver com a visão que temos da nossa vida e do nosso país. Conseguiremos nos desvencilhar do nosso egoísmo primal que nos faz votar segundo os nossos próprios interesses particulares, e não da coletividade, assim como nossos políticos parecem se eleger para privilegiar alguns senão os próprios? Como bem disse o Tirica: " Me elejam para que eu possa ajudar as famílias necessitadas a começar da minha..." Assim nós fazemos, assim eles fazem!
Como fazer para escolher entre dois projetos políticos cujo o objetivo principal é o poder pelo poder? De um lado um homem na sua obsessão de ser presidente, na sua segunda tentativa de chegar ao planalto, projeto no qual já provou ser capaz de fazer qualquer coisa pra dar cabo e, do outro, um partido cuja a utilização da máquina pública para fins outros, pra não falar só dos eleitorais, já passou de todos os limites outrora estabelecidos, e cujo mentor permanece ocluso, longe da mídia, por conveniência, e seu líder maior parece o real candidato à presidência.
Pergunta difícil essa, né? A resposta nos brasileiros daremos semana que vem. Espero que saibamos o que estamos fazendo.
Belem, 24/10/10
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