Sexta passada deixei Belém em definitivo rumo ao Rio de Janeiro. Mudança esta acompanhada de várias outras que sei, me mudarão por dentro novamente. Nos últimos anos tem sido assim. Mudo e algo muda dentro em mim no processo da mudança!
Ficar em Belém esse ano foi muito bom apesar da distância dos filhos e a falta de um amor do lado.
Deixo novos amigos, alguns especiais, na certeza que sempre haverá festa nos nossos reencontros. Festa, que por sinal, não me faltou por lá.
Obrigado Belém por tudo!
Vamos ver o que nos espera de agora em diante ...
Espero o melhor!
Resolvi ter um blog para falar da vida como eu a vejo, em prosa e verso, sempre ...
Monday, November 29, 2010
Saturday, November 20, 2010
Paz
De repente, a paz tomou uma importância maior
E eu vi que não a tinha
A ansiedade a tomara
Num momento, já não existia.
Mas nessa hora uma palavra
Um alerta veio-me à mente
Não dá pra deixar de ser gente
Mas dá pra entregar o caminho
O que quero
Desejo
Espero
Preciso
Virá quando não esperar
E não mais pensar nisso
E eu vi que não a tinha
A ansiedade a tomara
Num momento, já não existia.
Mas nessa hora uma palavra
Um alerta veio-me à mente
Não dá pra deixar de ser gente
Mas dá pra entregar o caminho
O que quero
Desejo
Espero
Preciso
Virá quando não esperar
E não mais pensar nisso
Memória
Monday, November 15, 2010
Estou mordido!
Não, não estou com raiva, não! Pelo menos não que eu saiba. Fui só mordido por um cachorro hoje.
A coisa aconteceu na praia da ilha de Mosqueiro, perto de Belém. Naturalmente, uma tentativa de fazer o meu feriado algo diferente. Tentativa bem sucedida, diga-se de passagem! Mal pus os pés na praia me dispus a fazer uma caminhada, coisa que gosto de fazer, para conhecer o local antes de comer alguma coisa de almoço. No meio da bendita caminhada sou surpreendido por trás (além de cachorro era covarde!) por um cachorro que parece ter confundido meu tornozelo com algum osso que gosta muito ou tava com raiva de mim.
Se tava com raiva ela passou pra mim instantaneamente pois assim que livrei minha perna da boca dele parti pra cima do infeliz que nem o Tarzan, gritando mais alto do que ele latia. Não me pergunte por que fiz isso. Acho que ele não me inspirou medo. Foi como se eu dissesse pra ele: Vai encarar? Ele desistiu e foi embora.
Depois foi uma romaria entre hospital, onde fiz os curativos no tornozelo, e o posto de saúde onde tomei a primeira dose da vacina anti-rábica. Vai dizer que não foi diferente o meu feriado?
A coisa aconteceu na praia da ilha de Mosqueiro, perto de Belém. Naturalmente, uma tentativa de fazer o meu feriado algo diferente. Tentativa bem sucedida, diga-se de passagem! Mal pus os pés na praia me dispus a fazer uma caminhada, coisa que gosto de fazer, para conhecer o local antes de comer alguma coisa de almoço. No meio da bendita caminhada sou surpreendido por trás (além de cachorro era covarde!) por um cachorro que parece ter confundido meu tornozelo com algum osso que gosta muito ou tava com raiva de mim.Se tava com raiva ela passou pra mim instantaneamente pois assim que livrei minha perna da boca dele parti pra cima do infeliz que nem o Tarzan, gritando mais alto do que ele latia. Não me pergunte por que fiz isso. Acho que ele não me inspirou medo. Foi como se eu dissesse pra ele: Vai encarar? Ele desistiu e foi embora.
Depois foi uma romaria entre hospital, onde fiz os curativos no tornozelo, e o posto de saúde onde tomei a primeira dose da vacina anti-rábica. Vai dizer que não foi diferente o meu feriado?
O tempo e as jabuticabas

'Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver
daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela
menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela
chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir
quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos
para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem
para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir
estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas,
que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões
de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo
majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas
não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a
essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente
humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta
com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não
foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados,
e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse
O essencial faz a vida valer a pena.
Rubem Alves
Saturday, November 13, 2010
O homem é um espanto!
Quanto mais me relaciono e conheço gente fico espantado com o ser humano. Com a capacidade de amar e de desprezar o amor. Com a capacidade de usar de sabedoria, e aprender com ela, mas também de confundi-la com conhecimento. De fugir da melancolia em festas sem fantasia alguma mas onde todos usam máscaras. Só o homem é capaz de apaixonar-se perdidamente por alguém e anos depois ver aquela pessoa com a indiferença dos desconhecidos. Só ele, pode viver a fama e a glória numa hora e se tornar depois esquecido.É o homem ... esse desconhecido.
Mas o que mais me surpreende é quando ouço a verdade e a justiça saírem de lábios "suspeitos" e a mentira de bocas "santas". Quando julgamos os que expõem suas fraquezas e louvamos os que as escondem.
Realmente, essa contradição que é o ser humano realmente me espanta!
Saturday, November 06, 2010
Lembranças de Airton Senna
Nesse domingo teremos Grande Prêmio Brasil de Formula 1. Sou um viciado em formula que acompanho desde o final dos anos 70. Acompanhei, portanto o nascimento e crescimento de um fenômeno das pistas que se tornou, na opinião de muitos com eu, o maior piloto de todos os tempos: Airton Senna da Silva!
Essa semana mais um documentário sobre a sua vida estréia nos cinemas, que devo assistir assim que possível (vide trailer abaixo).
Airton foi um ícone do esporte e alguém muito especial para mim e para milhares de brasileiros que acompanharam sua carreira e lhe devotaram uma admiração sem igual. Existia nele uma obstinação pela vitória e uma capacidade de desafiar limites que nos inspirava todas as manhãs de domingo, quando acompanhávamos as suas maravilhosas performances nas pistas de todo mundo. Sua paixão pela velocidade contaminou o pais e nos tornamos também apaixonados por Formula 1, e por ele.
Airton tinha fé mística em Deus e chegou certa vez a dizer que o tinha visto em uma visão quando cruzara a linha de chegada de uma corrida. Sua obstinação em conseguir o que queria e em vencer gerava em nós uma ilusão de que nos representava, de alguma forma, nas suas conquistas. De certa forma, ao erguer a bandeira nacional após cada vitória ele incorporava e alimentava esse sentimento, como também ao nos incluir nas suas vitorias dizendo "a gente" tinha que vencer desta vez, como fazia.
No entanto, em 1 de maio de 1994, participava de uma feijoada patrocinada pela igreja em que era membro na época quando recebemos a noticia da confirmação da morte do Airton. É impressionante que me lembro da data, das circunstancias, do acidente, de tudo como se tivesse ocorrido com alguém próximo e muito querido. Mas era assim que o víamos. Foi um choque, e traumas assim são difíceis de esquecer.
É certo, e muitos analistas esportivos irão concordar comigo, que Michael Schumacher, o maior campeão e vencedor das pistas de formula 1, não teria metade das vitórias que teve se Senna tivesse prosseguido na sua carreira. Até aquele domingo, Schumacher havia vencido Senna mas nunca tinha conseguido uma pole-position em disputa direta com ele, mesmo com um carro, na época superior ao do Airton. Foi, alías, a frente de Schumacher que ele encontrou a, depois do acidente, famosa curva Tamburello do circuito de Ímola da Itália. Uma tragédia de alguma forma pressentida pelo próprio Airton num final de semana cheio de acidentes, mas não evitada. Na sexta o piloto austríaco Roland Ratzenberger havia morrido nos treinos de classificação. No mesmo, o jovem Rubens Barrichello também se acidentara e a corrida começou também com um acidente na largada que pode ter contribuído também para morte do grande campeão das pistas (vide vídeo).
O saldo da sua morte pode ser contabilizado pelas modificações ocorridas nos carros de formula 1 e circuitos a partir daí. Hoje uma acidente fatal na categoria é algo infinitamente mais difícil de acontecer que naquela época tal a segurança hoje imposta. O circuito de Imola foi modificado bem como vários circuitos visando o aumento da segurança. Os carros ganharam células de sobrevivência que são incrivelmente eficientes.
Pra mim, o Airton nos deixou uma lição de que, quando desafiamos os nossos limites, é possível vencê-los com aplicação e talento. No entanto, é preciso saber que somos homens e não deuses, portanto mortais e falhos. O erro, a fatalidade, a nossa Tamburello pode nos encontrar quando menos esperarmos e é preciso estarmos prontos para ela.Foi-se o homem e ficou o mito que mesmo depois de 16 anos continuamos a celebrar.
Tuesday, November 02, 2010
A fórmula da felicidade III
Comecei a escrever sobre o tema da felicidade como uma necessidade de por pra fora um turbilhão de idéias e convicções que explodiram a medida que li a introdução do livro de Zigmunt Bauman – A arte da vida. Os que lerem o livro irão reconhecer algumas das idéias nele contidas no primeiro texto, mas não todas nem da forma como as expus. Minha intenção é realizar uma síntese a partir das minhas reflexões sobre o assunto a partir do que leio e de como interpreto o que leio.
Nesse texto, sequência do anterior, e que já antecipo não será conclusivo, convido você a fazer a mesma coisa. Refletir acerca da felicidade a partir do que ler nos próximos parágrafos.
Concluímos o texto anterior com algumas perguntas:
O que é felicidade? Como obtê-la?
Vamos tentar avançar na resposta dessas perguntas partindo de um argumento filosófico, o de que a felicidade é uma construção individual. Assim sendo, a felicidade sob o ponto de vista de uma Madre Tereza de Calcutá ou de um Gandhi, por exemplo, terá diferenças significativas com a da Madona, Angelina Julie ou qualquer outro ícone pop atual. Não obstante, existirão traços comuns entre estas construções, frutos das escolhas tomadas por cada uma das pessoas citadas. O que estou tentando dizer é que a mesma atitude ou vivência relacional traz sentimentos e sensações semelhantes em todos nós, por exemplo, uma ajuda sincera ao semelhante gera uma satisfação universal em qualquer ser humano que contribui para a felicidade do outro. No entanto, abrir mão dos próprios interesses imediatos, e do seu tempo pra ser simples, e fazê-lo pode ser uma decisão difícil para muitos de nós.
Para entender o que significa felicidade, precisaremos primeiramente definir se ela é, para nós, um estado de espírito, ou a soma de momentos ou episódios felizes.
Se optarmos pela primeira opção estaremos na companhia dos filósofos clássicos. Aristóteles, por exemplo, acreditava que este estado era obtido pela obtenção de bens "internos" e "externos", cuja lista teria fundamentação empírica e poderia ser relatada por todos os cidadãos de Atenas, como: bom berço, muitos amigos, bons amigos, riqueza, bons filhos, saúde e por ai vai. Essa é a mesma concepção de quem pensa hoje, se eu tivesse isso ou aquilo seria feliz. O fato é que o sentimento de felicidade ou contentamento com a própria vida, por aqueles que o professam, em sua maioria independe da lista de bens que possuem. Existem pessoas ricas de tudo no mundo e pobres de felicidade e vice-versa. No entanto, a concepção aristotélica de um estado de felicidade contínuo e permanente, a partir do alcance de determinado patamar, acompanhou o pensamento humano ao longo dos séculos e é o prometido pela maioria dos discursos religiosos. Contemporaneamente esse "estado de felicidade" tem sido trocado pela "busca de felicidade", nas palavras de Tocqueville, "a felicidade é uma qualidade que se retira diante deles sem sair de vista, e ao se retirar acena para a busca. A cada instante eles pensam que conseguirão capturá-la, e a cada vez ela escorregará por entre seus dedos" (Alexis de Tocqueville, Democracy in America, New York, Harper,1988, p. 538). Em suma, o casal tem tudo pra ser feliz, casa própria, carro, bons empregos, filhos maravilhosos, ótimo padrão social, enfim tudo que todos parecem buscar a vida toda e, no entanto, se separam, pois estão infelizes. Falta-lhes a busca que o mantinham vivos. Quando chegaram onde miraram chegar permanecer ali é um tormento de monotonia. Tocquevilhe, na mesma análise sobre a sociedade americana, complementa; " essa é a razão da estranha melancolia que frequentemente assombra os habitantes das democracias em meio a abundância, e daquele desgosto pela vida que por vezes toma conta deles em condições de calma e tranqüilidade".
Fico imaginando que para o homem moderno a idéia de um céu, conforme retratada no livro de Apocalipse, pode parecer pouco atrativa. Diriam: Tá bom, quis a vida toda chegar aqui mas será que não tem um outro lugar menos tranqüilo (e mais emocionante) pra gente ir nos finais de semana pra variar? O céu só é maravilhoso, para ele, enquanto não se chega lá. Como disse Cazuza: "O tédio é o sentimento mais moderno que existe". No céu, esse homem, dado que seu coração (e sua essência) não mude, terá saudade da terra ou irá querer fazer algumas modificações no cotidiano celestial.
Essa insatisfação contínua nos é típica e é o motivo principal dos nossos esforços de construção e desenvolvimento humano. Corremos, porém uma corrida cuja a linha de chegada é conhecida e pouco atraente, a não ser para os que a encaram com fé na continuidade da caminhada após cruzarem a mesma, fazendo da própria corrida um fim em si, de forma que tolo é quem não aproveita para apreciar a paisagem durante a jornada.
Na contramão dos que sonham com o estado de felicidade permanente estão os que se contentam com uma sucessão de "momentos felizes". Estes são mais sensoriais e optam pelo transitório, mas que se possa usufruir hoje, que o eterno que nunca chega ou chegará, pelo menos para eles. Assim, relacionamentos intensos mesmo que curtos são preferíveis que relações duradouras, mas mornas. Não se tem intenção de construir nada mas aproveitar cada segundo da vida como se fosse o último. Muito embora sejam cônscios da brevidade dos prazeres que buscam, preferem gozá-los que passar a existência numa busca pelo eterno. É a forma de pensar adotada pelo autor de Eclesiastes, o rei Salomão, ao dizer: "Disse comigo: vamos! Eu te provarei com alegria; goza, pois, a felicidade; ... tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei meu coração de alegria alguma ...". No entanto, a conclusão dele sobre essa busca é a mesma que teve com relação a de que a felicidade viria pela construção de algo permanente, uma grande obra por exemplo, de que tudo no final "era vaidade e correr atrás do vento" – Ec 2.
Depois dessa afirmação pessimista desse expoente bíblico que praticamente esgotou todas as formas de busca humana de significado do que vem a ser felicidade, inclusive a própria busca de sabedoria, ficamos num impasse. A felicidade é uma meta individual comum a todos nós, seja ela explicitamente declarada ou não. No entanto, somos avessos a pontos de chegada e nos sentirmos contentes com o que temos, ao mesmo tempo que gozar a vida sem um propósito claro, um sonho, um objetivo, nos parece irracional e fútil para a maioria de nós, mesmo que ao alcançá-lo precisemos de outro, já que o anterior perdeu sua significância.
Sem querer concluir, como falei antes, mas tentando fechar esse texto, me parece que a felicidade está mais próxima de quem consegue entender e aceitar essas duas realidades da vida. Primeiro a de que nada que conquistemos nos fará mais felizes que o ato de conquistá-las e todo o processo aí envolvido e, segundo, que nada estragará mais a nossa felicidade que a ansiedade com relação ao que não se tem. Saber gozar a vida dentro das suas possibilidades e relacionamentos atuais é uma arte. Nesse espetáculo que é a vida humana, em sua breve passagem por esse mundo, somos ao mesmo tempo autores e atores principais das nossas próprias peças, que escrevemos com as nossas ações e sentimentos do dia a dia. Nossas obras poderão influenciar e ajudar muitos nas suas jornadas e, como todo artista, nos deliciaremos com o aplauso, como uma confirmação de que fizemos bem o que tínhamos de fazer. Ser feliz, porém, é saber dar importância ao que é importante, que normalmente não custa mais que uma atitude, e através disso trazer a outros, e não só a si próprio, essa sensação de felicidade. Assim, o contentamento do ator advindo do aplauso vem também porque o público ficou feliz com a sua atuação, ou seja, ele contribuiu para a felicidade da platéia, nem que seja por um momento. Este momento, porém é único para ambos e vale toda a pena.
Façam as suas escolhas, mas sejam felizes fazendo-as! A responsabilidade sobre a sua felicidade está nas suas mãos.
Belém, 02/11/10
Nesse texto, sequência do anterior, e que já antecipo não será conclusivo, convido você a fazer a mesma coisa. Refletir acerca da felicidade a partir do que ler nos próximos parágrafos.
Concluímos o texto anterior com algumas perguntas:
O que é felicidade? Como obtê-la?
Vamos tentar avançar na resposta dessas perguntas partindo de um argumento filosófico, o de que a felicidade é uma construção individual. Assim sendo, a felicidade sob o ponto de vista de uma Madre Tereza de Calcutá ou de um Gandhi, por exemplo, terá diferenças significativas com a da Madona, Angelina Julie ou qualquer outro ícone pop atual. Não obstante, existirão traços comuns entre estas construções, frutos das escolhas tomadas por cada uma das pessoas citadas. O que estou tentando dizer é que a mesma atitude ou vivência relacional traz sentimentos e sensações semelhantes em todos nós, por exemplo, uma ajuda sincera ao semelhante gera uma satisfação universal em qualquer ser humano que contribui para a felicidade do outro. No entanto, abrir mão dos próprios interesses imediatos, e do seu tempo pra ser simples, e fazê-lo pode ser uma decisão difícil para muitos de nós.
Para entender o que significa felicidade, precisaremos primeiramente definir se ela é, para nós, um estado de espírito, ou a soma de momentos ou episódios felizes.
Se optarmos pela primeira opção estaremos na companhia dos filósofos clássicos. Aristóteles, por exemplo, acreditava que este estado era obtido pela obtenção de bens "internos" e "externos", cuja lista teria fundamentação empírica e poderia ser relatada por todos os cidadãos de Atenas, como: bom berço, muitos amigos, bons amigos, riqueza, bons filhos, saúde e por ai vai. Essa é a mesma concepção de quem pensa hoje, se eu tivesse isso ou aquilo seria feliz. O fato é que o sentimento de felicidade ou contentamento com a própria vida, por aqueles que o professam, em sua maioria independe da lista de bens que possuem. Existem pessoas ricas de tudo no mundo e pobres de felicidade e vice-versa. No entanto, a concepção aristotélica de um estado de felicidade contínuo e permanente, a partir do alcance de determinado patamar, acompanhou o pensamento humano ao longo dos séculos e é o prometido pela maioria dos discursos religiosos. Contemporaneamente esse "estado de felicidade" tem sido trocado pela "busca de felicidade", nas palavras de Tocqueville, "a felicidade é uma qualidade que se retira diante deles sem sair de vista, e ao se retirar acena para a busca. A cada instante eles pensam que conseguirão capturá-la, e a cada vez ela escorregará por entre seus dedos" (Alexis de Tocqueville, Democracy in America, New York, Harper,1988, p. 538). Em suma, o casal tem tudo pra ser feliz, casa própria, carro, bons empregos, filhos maravilhosos, ótimo padrão social, enfim tudo que todos parecem buscar a vida toda e, no entanto, se separam, pois estão infelizes. Falta-lhes a busca que o mantinham vivos. Quando chegaram onde miraram chegar permanecer ali é um tormento de monotonia. Tocquevilhe, na mesma análise sobre a sociedade americana, complementa; " essa é a razão da estranha melancolia que frequentemente assombra os habitantes das democracias em meio a abundância, e daquele desgosto pela vida que por vezes toma conta deles em condições de calma e tranqüilidade".
Fico imaginando que para o homem moderno a idéia de um céu, conforme retratada no livro de Apocalipse, pode parecer pouco atrativa. Diriam: Tá bom, quis a vida toda chegar aqui mas será que não tem um outro lugar menos tranqüilo (e mais emocionante) pra gente ir nos finais de semana pra variar? O céu só é maravilhoso, para ele, enquanto não se chega lá. Como disse Cazuza: "O tédio é o sentimento mais moderno que existe". No céu, esse homem, dado que seu coração (e sua essência) não mude, terá saudade da terra ou irá querer fazer algumas modificações no cotidiano celestial.
Essa insatisfação contínua nos é típica e é o motivo principal dos nossos esforços de construção e desenvolvimento humano. Corremos, porém uma corrida cuja a linha de chegada é conhecida e pouco atraente, a não ser para os que a encaram com fé na continuidade da caminhada após cruzarem a mesma, fazendo da própria corrida um fim em si, de forma que tolo é quem não aproveita para apreciar a paisagem durante a jornada.
Na contramão dos que sonham com o estado de felicidade permanente estão os que se contentam com uma sucessão de "momentos felizes". Estes são mais sensoriais e optam pelo transitório, mas que se possa usufruir hoje, que o eterno que nunca chega ou chegará, pelo menos para eles. Assim, relacionamentos intensos mesmo que curtos são preferíveis que relações duradouras, mas mornas. Não se tem intenção de construir nada mas aproveitar cada segundo da vida como se fosse o último. Muito embora sejam cônscios da brevidade dos prazeres que buscam, preferem gozá-los que passar a existência numa busca pelo eterno. É a forma de pensar adotada pelo autor de Eclesiastes, o rei Salomão, ao dizer: "Disse comigo: vamos! Eu te provarei com alegria; goza, pois, a felicidade; ... tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei meu coração de alegria alguma ...". No entanto, a conclusão dele sobre essa busca é a mesma que teve com relação a de que a felicidade viria pela construção de algo permanente, uma grande obra por exemplo, de que tudo no final "era vaidade e correr atrás do vento" – Ec 2.
Depois dessa afirmação pessimista desse expoente bíblico que praticamente esgotou todas as formas de busca humana de significado do que vem a ser felicidade, inclusive a própria busca de sabedoria, ficamos num impasse. A felicidade é uma meta individual comum a todos nós, seja ela explicitamente declarada ou não. No entanto, somos avessos a pontos de chegada e nos sentirmos contentes com o que temos, ao mesmo tempo que gozar a vida sem um propósito claro, um sonho, um objetivo, nos parece irracional e fútil para a maioria de nós, mesmo que ao alcançá-lo precisemos de outro, já que o anterior perdeu sua significância.
Sem querer concluir, como falei antes, mas tentando fechar esse texto, me parece que a felicidade está mais próxima de quem consegue entender e aceitar essas duas realidades da vida. Primeiro a de que nada que conquistemos nos fará mais felizes que o ato de conquistá-las e todo o processo aí envolvido e, segundo, que nada estragará mais a nossa felicidade que a ansiedade com relação ao que não se tem. Saber gozar a vida dentro das suas possibilidades e relacionamentos atuais é uma arte. Nesse espetáculo que é a vida humana, em sua breve passagem por esse mundo, somos ao mesmo tempo autores e atores principais das nossas próprias peças, que escrevemos com as nossas ações e sentimentos do dia a dia. Nossas obras poderão influenciar e ajudar muitos nas suas jornadas e, como todo artista, nos deliciaremos com o aplauso, como uma confirmação de que fizemos bem o que tínhamos de fazer. Ser feliz, porém, é saber dar importância ao que é importante, que normalmente não custa mais que uma atitude, e através disso trazer a outros, e não só a si próprio, essa sensação de felicidade. Assim, o contentamento do ator advindo do aplauso vem também porque o público ficou feliz com a sua atuação, ou seja, ele contribuiu para a felicidade da platéia, nem que seja por um momento. Este momento, porém é único para ambos e vale toda a pena.
Façam as suas escolhas, mas sejam felizes fazendo-as! A responsabilidade sobre a sua felicidade está nas suas mãos.
Belém, 02/11/10
Monday, November 01, 2010
Comer, Rezar e Amar – O outro lado da moeda
Li a pouco numa revista um artigo sobre o filme bem diferente do usual que me fez refletir nos nossos paradigmas de pensamento. Paradigma é uma janela pela qual vemos o mundo. A questão é que dependendo da posição da janela, altura e tamanho, o mundo visto por ela pode ficar bem limitado. Pois bem, imagine o seguinte; você não sabe nada do filme ou do livro e eu lhe conto a seguinte história:
Um jovem professor de direito em meio a uma crise existencial resolve por fim a seu casamento com sua mulher escritora e sair pelo mundo em busca de alivio para seu dilema interior. Vai para Itália, conhece novos amigos, desfruta dos prazeres da mesa, depois passa um período na índia procurando elevo espiritual e por fim passa uma temporada em Bali onde encontra uma latina "caliente" por quem se apaixona e se casa.
Agora me diga; você pagaria 200 mil dólares pelos direitos de publicação de uma história assim? No mínimo minhas amigas leitoras ficariam revoltadas com essa história e com pena da "coitadinha" da esposa, não interessando a contribuição da mesma para o fim do casamento, mesmo se ela fosse descrita como egocêntrica voltada somente para os seus projetos pessoais, seu novo livro, por exemplo.
Troque o papeis e o que temos? Um sucesso editorial e um filme inspirador.
Michel Cooper, o professor egocêntrico retratado por Liz Gilbert, com quem foi casada, conta em seu livro "Displaced", que nunca chegará por razões óbvias ao sucesso de "Eat, Pray, Love" da sua sua ex, como foi sua peregrinação após um divórcio que, segundo ele, o destruiu emocionalmente. O nosso professor "egoísta" é um ativista dos direitos humanos e se "encontrou" participando de missões em países com conflitos armados ou vítimas de desastres naturais como Kosovo, Mongolia, Iran e Iraque, roteiro turístico convenhamos bem menos atraente que o de Liz.
Não sei ao certo se numa dessas missões apaixonou-se novamente dessa vez por uma diplomata canadense, Béatrice Maillé, com quem tem hoje dois filhos.
Calma meninas! Não estou tentando crucificar ninguém! Continuo adorando o filme e a história contada por Liz Gilbert.
Só queria abrir uma janela do outro lado da casa ... onde os homens não são os únicos egoístas desse mundo, sofrem com as separações (e não só caem na diversão quando isso acontece!) e demoram a reconstruir suas vidas abaladas pelo episódio. Não interessa o que tenha realmente acontecido entre os dois o fato é que encontraram um caminho melhor para ambos apesar de tudo.
Um jovem professor de direito em meio a uma crise existencial resolve por fim a seu casamento com sua mulher escritora e sair pelo mundo em busca de alivio para seu dilema interior. Vai para Itália, conhece novos amigos, desfruta dos prazeres da mesa, depois passa um período na índia procurando elevo espiritual e por fim passa uma temporada em Bali onde encontra uma latina "caliente" por quem se apaixona e se casa.
Agora me diga; você pagaria 200 mil dólares pelos direitos de publicação de uma história assim? No mínimo minhas amigas leitoras ficariam revoltadas com essa história e com pena da "coitadinha" da esposa, não interessando a contribuição da mesma para o fim do casamento, mesmo se ela fosse descrita como egocêntrica voltada somente para os seus projetos pessoais, seu novo livro, por exemplo.
Troque o papeis e o que temos? Um sucesso editorial e um filme inspirador.
Michel Cooper, o professor egocêntrico retratado por Liz Gilbert, com quem foi casada, conta em seu livro "Displaced", que nunca chegará por razões óbvias ao sucesso de "Eat, Pray, Love" da sua sua ex, como foi sua peregrinação após um divórcio que, segundo ele, o destruiu emocionalmente. O nosso professor "egoísta" é um ativista dos direitos humanos e se "encontrou" participando de missões em países com conflitos armados ou vítimas de desastres naturais como Kosovo, Mongolia, Iran e Iraque, roteiro turístico convenhamos bem menos atraente que o de Liz.
Não sei ao certo se numa dessas missões apaixonou-se novamente dessa vez por uma diplomata canadense, Béatrice Maillé, com quem tem hoje dois filhos.
Calma meninas! Não estou tentando crucificar ninguém! Continuo adorando o filme e a história contada por Liz Gilbert.
Só queria abrir uma janela do outro lado da casa ... onde os homens não são os únicos egoístas desse mundo, sofrem com as separações (e não só caem na diversão quando isso acontece!) e demoram a reconstruir suas vidas abaladas pelo episódio. Não interessa o que tenha realmente acontecido entre os dois o fato é que encontraram um caminho melhor para ambos apesar de tudo.
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