Sunday, October 31, 2010

A fórmula da felicidade - II




Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios
Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos

Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz

Charles Chaplin

Friday, October 29, 2010

A fórmula da Felicidade - I


A felicidade, essa idealização que fazemos e pela qual acordamos todos os dias tem sido a grande promessa de várias entidades, sejam elas físicas ou não. Cito alguns exemplos:

O mercado – esta entidade, composta por todos os entes econômicos que disputam a nossa remuneração, nos vende, literalmente, a idéia da satisfação desse vácuo interior com substitutos relacionais. Explico, muito embora a sensação de felicidade esteja mais associada ao ser, ou a construção do ser (ou self), o mercado ameniza esse processo associando essa sensação ao ter. Assim, se você tem você pode comprar coisas que lhe deixem feliz até que o tempo daquela satisfação se esgote e você tenha que comprar algo mais, e depois outra coisa num ato contínuo e sem fim, que alimenta o próprio mercado.

"Numa sociedade de compradores e numa vida de compras, estamos felizes enquanto não perdermos a esperança de sermos felizes" – Zygmunt Bauman

Essa felicidade, vendida pelo mercado, traz no bojo algumas mensagens que contaminaram a nossa sociedade como um todo. Por exemplo, você não é o que você é, mas o que você usa ou tem. São os títulos e o dinheiro que lhe farão importante, lhe darão a atenção e o amor que necessita, ou pelo menos o sexo na pior das hipóteses. Mais ainda, as relações, como todas as de consumo, são utilitaristas e não prevêem grandes compromissos entre as partes. Assim, os amores tornam-se líquidos e breves, ou seja, a menos que a satisfação atual da relação se mantenha por si não se fará muito para mantê-la, afinal, nada é pra sempre e relação boa é a que me serve enquanto me serve, como tudo que consumo.

A religião – as organizações religiosas, cada uma com sua proposta de ligação com o transcendente, com Deus, seja lá como é definido por cada uma delas, têm também as suas receitas de felicidade intimamente relacionadas a algum tipo de conexão espiritual.

Assim como o mercado essas organizações cobram seu preço para viabilizarem esse santo graal; pode ser um sacrifício físico, a abstinência de um prazer, a negação de si mesmo, a anulação do desejo, o isolamento, enfim, qualquer outra coisa imposta como disciplina para se alcançar um elevo espiritual, uma integração com o divino, o desenvolvimento da vontade sobre a ansiedade e a concupiscência gerando em última instância paz interior, o grande segredo da felicidade para a maioria das propostas religiosas. Algumas porém, muito influenciadas pelo mercado aceitam o dinheiro também como facilitador do céu, fazendo o caminho estreito mais largo para os que tem mais "a dar".

Sendo bem objetivo, pelos propósitos desse texto, o trilhar desse caminho é individual, no entanto, a associação coletiva é quase inescapável trazendo para o religioso uma identidade, e expectativas relativas a mesma. Assim como no mercado você é o que tem, nesse mundo você é o que professa ou o que o grupo que participa professa. Para esses grupos a infelicidade individual é um pecado pode ser mal vista já que todos que participam desse grupo deveriam ser, em tese, felizes pois partilham da fonte da felicidade. E assim, quem adota esse caminho, muitas vezes reduz a sua construção dessa felicidade individual àquilo lhe é "vendido" pelo grupo que participa. Como a uma forma essa pessoa se "conforma" a forma e o jeito do modelo espiritual da religião que adotou. Nem sempre essa forma se encaixa plenamente e aí sobram duas alternativas; a hipocrisia ou o abandono daquele modelo.

A Paixão – apesar de vir do grego pathos, que significa excesso, catástrofe, passagem, passividade, e sofrimento, a paixão é uma das grandes vendedoras de felicidade no mundo. O apaixonado sofre e vicia-se nesse sentimento de forma que sem o mesmo, a vida torna-se menos colorida e mais sem graça. As paixões parecem dar sentido a vida. Do mesmo modo que o domingo é aguardado com ansiedade pelo apaixonado por futebol, o apaixonado pelo trabalho recolhe-se cedo nesse mesmo dia para que a segunda lhe chegue logo.

Isso sem falar nas paixões românticas, platônicas ou não. Essas tiram o sono, a fome e o próprio juízo. São egoístas e possessivas por natureza pois dizem respeito a vontade de ter o outro pra si. Ele é meu e ela é minha e de mais ninguém! O problema é quando os dois fazem desse desejo uma obsessão fazendo a vida girar em torno dessa relação como se ela não estivesse cheia de projeções e ilusões. A paixão que une os casais se não alimentada com boas doses de realidade e liberdade vira uma prisão e uma fuga tanto quanto são todos os vícios pois mexe com algo poderoso em nós que é o prazer, e em doses cavalares, muito embora seja diferente.

Os vícios como os relacionados ao sexo, à bebida, compras compulsivas, comida ou às próprias drogas, não vendem felicidade. Antes eles vendem uma fuga da infelicidade, o que é bem diferente, por meio do prazer como anestésico da dor de uma falta ou de um vazio interior. A paixão, porém, vende a ilusão que a felicidade é tê-la, senti-la, vive-la de forma a mais intensa possível. E ficamos todos a babar por esse convite! Como ela não dura muito, senão se apegar a realidade, a ordem é ser feliz enquanto ela dura.



Mas o que seria então a felicidade? Como obtê-la? Se o que nos vendem os entes acima citados não nos satisfazem plenamente o que falta naquilo que oferecem?

Deixo essas perguntas para o próximo texto, até para lhe dar mais tempo para refletir nelas.

Até lá.



Ido Alves







Sunday, October 24, 2010

Planos de governo



Ultima semana de eleição. Promessômetro ligado a toda, candidatos posando de salvadores da pátria, novos Cristos que ao invés da cruz sofrem ataques de bolinhas de papel e, pasmem, rolos de fita adesiva e vão parar no hospital. Muitas acusações de cada lado. Fica difícil limpar a ficha dos dois sem que um deles não desenterre alguma sujeira do outro. Esse é o debate político que nos restou nesse segundo turno. Da forma como são expostas, as propostas de ambos parecem sair de um fundo infinito de um pais com recursos bem maiores que o nosso. Quem sabe saibam onde encontrar esses recursos? Nós é que não sabemos.

Estava lendo um livro muito interessante hoje, "A arte da Vida – Zigmunt Bauman (Editora ZAHAR)", e me deparei com o seguinte discurso proferido pelo senador Robert Kennedy em 18 de março de 1968, em plena campanha presidencial, pouco antes de ser assasinado:

"Nosso PNB considera em seus cálculos a poluição do ar, a publicidade do fumo e as ambulâncias que rodam para coletar os feridos em nossas rodovias. Ele registra os custos dos sistemas de segurança que instalamos para proteger nossos lares e as prisões em trancafiamos os que conseguem burlá-los. Ele leva em conta a destruição da nossa florestas de sequóias e sua substituição por uma urbanização descontrolada e caótica. Ele inclui a produção de napalm, armas nucleares e dos veículos armados usados pela polícia para reprimir a desordem urbana. Ele registra ... programas de televisão que glorificam a violência para vender brinquedos a crianças. Por outro lado, o PNB não observa a saúde de nossos filhos, a qualidade de nossa educação ou a alegria de nossos jogos. Não mede a beleza de nossa poesia e a solidez de nossos matrimônios. Não se preocupa em avaliar a qualidade de nossos debates políticos e a integridade de nossos representantes. Não considera a nossa coragem, sabedoria e cultura. Nada diz sobre a nossa compaixão e dedicação a nosso país. Em resumo, o PNB mede tudo, menos o que faz a vida valer a pena."

Não pude deixar de aplaudir mais de quarenta anos depois tanta verdade proferida num discurso de campanha. Que diferença, pensei!

Nossos maiores problemas não são econômicos. Nossos maiores desafios têm a ver com a visão que temos da nossa vida e do nosso país. Conseguiremos nos desvencilhar do nosso egoísmo primal que nos faz votar segundo os nossos próprios interesses particulares, e não da coletividade, assim como nossos políticos parecem se eleger para privilegiar alguns senão os próprios? Como bem disse o Tirica: " Me elejam para que eu possa ajudar as famílias necessitadas a começar da minha..." Assim nós fazemos, assim eles fazem!

Como fazer para escolher entre dois projetos políticos cujo o objetivo principal é o poder pelo poder? De um lado um homem na sua obsessão de ser presidente, na sua segunda tentativa de chegar ao planalto, projeto no qual já provou ser capaz de fazer qualquer coisa pra dar cabo e, do outro, um partido cuja a utilização da máquina pública para fins outros, pra não falar só dos eleitorais, já passou de todos os limites outrora estabelecidos, e cujo mentor permanece ocluso, longe da mídia, por conveniência, e seu líder maior parece o real candidato à presidência.

Pergunta difícil essa, né? A resposta nos brasileiros daremos semana que vem. Espero que saibamos o que estamos fazendo.



Belem, 24/10/10


 

Monday, October 11, 2010

Comer, Rezar e Amar

Depois de receber um sms do meu primo que o Paintball marcado para a noite estava cancelado, recorri ao meu plano B e fui assistir um dos dois filmes que gostaria de ver nesses dias. Depois de enfrentar uma fila enorme constatei que hoje era dia de ver Comer, Rezar e Amar, baseado no livro homônimo da escritora americana Elizabeth Gilbert.

A história da sua busca pessoal do equilíbrio e da paz interior me cativou desde a primeira cena. Talvez porque viva uma jornada semelhante desde que me separei. É claro que Recife, Campina Grande e Belém não tem o mesmo charme que Roma, Índia e Bali mas marcam a minha peregrinação interior onde tenho aprendido, como a autora, a me conhecer e a me preparar para as novas etapas da minha vida pessoal e profissional.

Ter coragem para admitir que se é infeliz e buscar sua felicidade através do autoconhecimento e dos relacionamentos pessoais sinceros, de uma afetividade sadia, e de uma fé desvinculada do molde religioso tradicional pode parecer loucura quando levado a extremos, como fez a autora. Mas pode ser a única saída para quem não se conforma com nada menos que se sentir feliz consigo mesmo e com a vida que tem.

Recomendo. Pra se refletir no que é importante na vida!



Saturday, October 09, 2010

O egoísmo dos amantes



"Somos egoístas graças a Deus"; assim dizia a minha orientadora de mestrado para reforçar a idéia de que somos o centro no qual giram as nossas decisões de vida. Apesar da frase ser teologicamente uma heresia, já que o Deus cristão é justamente a antítese do egoísmo, ela ressalta a nossa tendência natural de buscar a satisfação do próprio eu ou do ego ante as opções que nos aparecem na vida.

Queremos ser felizes e isso normalmente significa atender as demandas do nosso coração. Aí, nesse campo, encontramos toda sorte de paixões que nos demandam o atendimento imediato. O problema é que o nosso coração, quando não atendido, nos traz um sentimento de insatisfação e infelicidade do qual fugimos! No entanto, nem sempre conseguimos ou mesmo devemos atender as demandas ou desejos que temos. Essa mesma professora que tive, porém, nos dizia que tínhamos dentro de nós uma criança que, se não atendida nas suas necessidades, nos gerava um estado de infelicidade. Quando a atendemos propriamente nos sentimos felizes. No entanto, como toda criança ela precisa do papel do pai dando-lhe limites senão não crescerá nunca!

Caio Fabio em uma de suas maravilhosas pregações disse certa vez:

"A alma do homem não cresce sem dor, porém, não subsiste sem alegria"

Vivemos nessa corda bamba dialética entre satisfazer nossas vontades e sermos "felizes" ou impor-nos limites agindo de forma racional quando o nosso emocional não concorda com a nossa razão. Evitamos a dor e o conflito quando os mesmos nos são inevitáveis mesmo que sejam, na realidade, necessários para o nosso crescimento como seres humanos.

Diante desse quadro introdutório, uma questão me instigou a escrever esse texto: qual a relação entre a paixão e o egoísmo?

A resposta a essa pergunta é simples e direta: toda pois a paixão é egoísta por natureza! Ao contrário do amor que visa o bem do outro a paixão visa ter o outro pra si, não importando se esse relacionamento vai ser bom pra quem quer que seja. Nesse sentido a paixão é o mais irracional dos sentimentos, nem por isso o menos desejado.

Flavio Gikovate, cuja obra literária explora os aspectos psicológicos das relações amorosas e afirma em O mal, o bem e mais além – MG Editores, que as relações amorosas são compostas por associações entre egoístas e generosos. Muito embora reconheça essa dependência e a atração exercida entre os opostos, entendo que não existe nenhuma generosidade ou altruísmo nas relações passionais. A cobrança do interesse e presença do objeto da paixão na vida de forma exclusiva e intensa é comum a ambas as partes. Mesmo a parte mais generosa da relação não medirá esforços para mantê-la a despeito dos interesses reais da outra parte. Nesse sentido, ao contrário do amor, a paixão gera dependência e não liberdade!

Quando queremos realmente alguém, não nos importamos com as opiniões dos outros sobre aquela pessoa ou mesmo se o momento é adequado para que iniciarmos um relacionamento com a mesma. Queremos viver aquilo o quanto antes. Carpe Diem é o lema do apaixonado. Como o juízo sobre o outro é afetado pela paixão isso, em alguns casos, torna-se perigoso.

Paulo e Diana se conheceram numa sala de jogos na internet. Inicialmente parceiros de jogo, por meio de um chat começaram a se conhecer e trocar intimidades. Com o tempo, a amizade inicial tomou outros contornos. A admiração mútua deu lugar ao encantamento amoroso. O problema é que Paulo já é casado e ama a mulher com quem já vive a mais de 30 anos. Angolano descendente de portugueses, Paulo vive uma fase da vida onde esses sentimentos tomam uma dimensão de novidade quebrando-lhe a rotina e trazendo uma sensação de juventude para um homem, embora bem conservado, já sexagenário. Diana por sua vez, sempre se interessou por homens mais velhos e é 30 anos mais nova que Paulo. Ela é brasileira e a distancia e a admiração por Paulo incentivou o contato freqüente com o mesmo apesar do estado civil do seu então amigo; Não demorou muito para que aquilo tudo tomasse dimensões de um conflito com todos os ingredientes de uma paixão e todas as culpas associadas a um caso assim. Para encurtar a história o desfecho desse caso foi que o casal, mesmo sem nunca terem uma só oportunidade de se encontrarem fisicamente, se envolveu amorosamente num nível que tiveram que decidir se viveriam aquilo até as últimas conseqüências e acabaram desistindo, não sem experimentar a dor e a frustração inerentes a decisão tomada para a alma de cada um. De um lado a razão lhes convencia de que tomaram a decisão correta preservando de um lado, a relação conjugal do Paulo que já sofria abalos por aquele envolvimento e que lhe era essencial na vida, e o do outro a passionalidade de Diana que não o dividiria com ninguém nem se submeteria ao papel de outra na vida do seu amado. Do outro lado a fantasia de viver um grande amor, provocada pelo envolvimento dos dois, deixou um vácuo a ser preenchido quem sabe por uma nova paixão ou a retomada de amores antigos.

A história acima, onde foram alterados detalhes e claro os nomes, de fato aconteceu e ilustra bem o que estamos discutindo aqui. Em primeiro lugar essa história não serviria como roteiro de nenhuma novela, pois a paixão aqui não venceu a razão, como ocorre nas estórias e romances de TV. Isso talvez tenha acontecido devido às dificuldades que os dois e o contexto virtual no qual estavam inseridos, mas o fato é que acabaram por dar razão a razão mesmo a contragosto. No entanto, após isso tiveram que conviver com a angústia de matar a vontade de ter intimidade mesmo que online. Por que isso? Por que para a paixão não interessa o que é melhor para o outro, interessa ter o outro pra si. Não interessam a perdas decorrentes, mas o que se possa ganhar de prazer no presente. Interessa viver o momento e só. E isso tudo com base numa fantasia criada pelas nossas mentes para atender o nosso coração. Isso é ou não egoísmo puro?

Sou contra a paixão? Claro que não. Ela tem o seu papel de unir os casais. No entanto é preciso entender sua natureza egoísta para não confundi-la com amor. Ela vai sempre tentar nos dominar e determinar nossas ações. Faremos de um tudo para estar com quem "amamos", no entanto, quando essa pessoa, por um motivo ou outro, ficar impossibilitada de nos dar o que queremos dela nos voltaremos contra ela com a mesma intensidade que nos aproximamos da mesma.

Onde quero chegar com isso tudo? Na minha vida amorosa por muito tempo fui acusado de egoísmo. Nesse tempo buscava encontrar a mim mesmo e, de fato, nessa busca minha tendência ao egoísmo era natural e essa atitude me custou coisas preciosas, mas estava atrás das verdades e mentiras escondidas nos meus sentimentos. Com o tempo eu fui vendo que mesmo aquelas pessoas capazes de doações maravilhosas de si em favor do outro, tinham o mesmo comportamento egoísta quando o assunto era atender as demandas da paixão. E assim, de fato, acabei dando razão à minha professora que o nosso egoísmo é universal, pelo menos quando estamos falando do encantamento amoroso ou da paixão entre os casais.

O que fazer para equilibrar essas coisas e gerar um sentimento de liberdade onde aquela pessoa com quem queremos estar tenha certeza da nossa paixão, mas não se sinta sufocada ou presa às nossas demandas? A resposta pra mim também é simples: amá-la! Quem ama dá espaço para que a pessoa esteja com você pelo prazer de estar e não por qualquer obrigação. Quem ama, sabe entender quando a hora de viver a relação que se quer ainda não chegou para o outro e respeita esse tempo. Quem ama não invade a vida do outro sem pedir licença, vai fazendo parte da mesma naturalmente ocupando os espaços que lhe são dados, sempre visando o bem do outro e não tão somente o seu. A necessidade de ser amado daquele que ama definirá a natureza do vínculo, mas nunca anulará o amor que se tem.

Espero ter lançado luzes sobre o que acredito ser um caminho menos egoísta e mais feliz para as nossas relações amorosas. No entanto, cabe a cada um escolher o que se quer viver e assumir as conseqüências dessa decisão. Com amor, porém, tudo fica mais claro e o caminho mais iluminado é sempre mais seguro.