Friday, April 01, 2011

Uma Parábola





A vida do homem era agradável e sua adoração era razoável. As duas coisa sempre andam juntas.

Deus não estava contente, de modo que permitiu que a vida do homem se tornasse desagradável. O homem reagiu de imediato com espanto. “como é possível? Como isso pôde acontecer comigo?”

Por trás do seu espanto se escondia a presunção, mas o homem não conseguia enxerga-la, pois pensava que era confiança: “Logo isso passa. Deus é fiel. A vida voltará a ser agradável”. Sua adoração continuava superficial.

Deus não estava contente e permitiu que mais coisas desagradáveis acontecessem na vida do homem, que tentou lidar com suas frustrações de forma positiva, como alguém que confia em Deus. “Serei paciente”, resolveu.

Não percebeu, no entanto, que seus esforços para ser paciente vinham da convicção  de que ele merecia uma vida agradável. Não ouviu seu próprio coração dizer: “se eu for paciente, Deus tornará as coisas agradáveis outra vez. Essa é a função dele.”

Sua adoração tornou-se uma forma de convencer Deus a restaurar sua vida agradável.

Deus não estava contente, de modo que afastou um pouco mais sua cerca de proteção ao redor do homem. A vida do homem transformou-se numa desgraça.

O homem ficou zangado. Deus parecia indiferente, impassível, insensível. A porta do céu se fechou e o homem sabia que não havia meio de força-lo a se abrir.

Ele só conseguia pensar em dias melhores – não nos dias melhores por vir, mas naqueles do passado, tempos que não existiam mais, que não davam qualquer sinal de que voltariam.

Seus maiores sonhos eram poder voltar àqueles tempos, voltar à vida agradável que um dia havia desfrutado e aos tempos em que sentira aquilo que chamava de alegria.

Não podia imaginar um sonho melhor do que voltar ao que era antes, mas  sabia que a vida nunca anda para trás. Os adultos nunca voltam a ser crianças e os idosos nunca recuperam a energia de seus anos mais produtivos.

Assim, o homem perdeu as esperanças. Deus havia retirado a sua benção e não havia qualquer sinal de que mudaria de ideia.

O homem entrou em depressão. Sua adoração cessou.

Deus não estava contente, do modo que liberou as forças do inferno sobre a vida do homem.

Tentações que antes eram controláveis tornaram-se irresistíveis. A dor de viver era tão grande que o prazer – ou, na verdade, o alívio – oferecido pelas tentações  parecia razoável e necessário. Porém, depois do prazer vinha um novo tipo de dor, uma aflição que obscurecia sua alma de tal modo que nem o sol mais radiante podia penetrar.

Tudo que o homem conseguia ver era a sua dor. Não conseguia ver Deus. Pensava ser capaz de vê-lo, mas o deus que enxergava era aquele cuja única função consistia em aliviar sua dor. Podia imaginar esse deus, mas não conseguia encontra-lo.

Dirigia-se ao único deus que conhecia e suplicava por sua ajuda. Por trás de suas súplicas quase podia ouvir seu coração dizendo: “Você me deve essa ajuda. Jamais poderei crer que merecia que tudo isso acontecesse. Essa dor não é minha culpa. Ela é culpa sua.

Sua adoração havia sempre assumido a forma de exigência, mas essa exigência tornou-se tão óbvio que o homem era quase capaz de reconhecê-la.

Deus não estava contente e, portanto deixou que as lutas persistissem. Além disso, Deus permitiu que mais problemas entrassem na vida do homem.

Com a parte do coração que sonhava seus maiores sonhos, o homem se assegurou de que jamais teria de enfrentar essas novas dificuldades que agora se encontravam em sua vida. Durante anos, havia dito em seu coração (sem nunca na verdade ter ouvido): “Isso jamais poderia acontecer comigo. Se acontecesse, minha vida estaria inacabada.  Se isso acontecesse, não teria outra escolha senão concluir que Deus não é bom. Seria obrigado a rejeitar Deus e ninguém, nem mesmo Deus, poderia me culpar.”

Mesmo assim,  o homem não conseguia ouvir o que seu coração estava  dizendo. Em vez disso, conseguia ouvir uma voz sedutora que fazia a pior tentação que já havia enfrentado – perder a esperança em Deus – parecer nobre, corajosamente desafiadora. Essa era a única maneira que restava do homem encontrar-se.

A batalha tornou-se cada vez mais acirrada, mas ainda restavam uma centelha de esperança. O homem se agarrou a essa esperança e, ao fazê-lo, não pôde ouvir seu coração dizer: “Tenho todo direito de desistir de minha fé. Não  entanto, estou escolhendo o caminho verdadeiramente nobre. Ainda creio em ti, Senhor. Ainda creio que tu estás presente e que minhas mais fervorosas esperanças de alegrias – quais e que minhas mais fervorosas esperanças de alegrias – quaisquer que ainda restem – encontram-se em ti. Por acaso isso te impressiona? Se isso não te impressiona, meu Deus como é que vou te comover?”

Sua adoração tornou-se mais desesperada do que nunca, mas o homem continuava orgulhoso.

Deus não estava contente e por isso permitiu que as atribulações do homem persistissem e que sua dor continuasse sem alívio. Deus se manteve afastado do homem. Não ofereceu nenhum conforto nem motivo palpável por esperanças. Foi difícil para Deus não melhorar todas as coisas na vida do homem. No entanto, foi ainda mais difícil não se revelar diretamente ao homem e assegurá-lo de sua presença.

Mas ele não fez isso. Deus tinha para o homem um sonho maior do que uma volta à vida agradável. Deseja que homem encontrasse  a verdadeira alegria. Ansiava por restaurar as esperanças do homem naquilo que era mais importante. No entanto, o homem ainda não sabia o que era isso.

A névoa ao redor da alma do homem tornou-se tão espessa que ele podia sentí-la, como paredes o cercando e se fechando ao seu redor. Restava apenas o mistério; sem dúvida, havia medo e até mesmo pavor, porém o sentimento mais acentuado era o de mistério, o mistério de uma vida terrível e de um Deus bom.

Onde estava Deus? Quando o homem tornou-se mais consciente de sua necessidade de Deus, o Senhor desapareceu. Não fazia sentido algum. Afinal, Deus estava presente ou não? Se estava, será que se importava?

O homem não podia desistir de Deus, Lembrou-se de Jacó e começou a lutar. Porém, lutou na escuridão, em trevas tão densas que não conseguia mais enxergar seus sonhos de uma vida agradável.

Na escuridão profunda não se pode ver, mas se pode ouvir, O homem pôde ouvir, pela primeira vez o que seu coração estava dizendo.

“Abençoa-me!”, clamou. Do mais profundo de sua alma, podia ouvir palavras que refletiam uma determinação de não se desprender de Deus.

“Abençoa-me!” Não porque eu sou bom, mas porque Tu és bom! Abençoa-me! não porque mereço tua benção, mas porque e da tua natureza abençoar. Tu não podes evitar. Não apelo para quem eu sou. Tu não meves coisa alguma. Apelo apenas para quem tu és.”

A dor ainda estava lá, mas então o homem viu a Deus. E o clamor por benção não era mais uma voz exigindo uma vida agradável. Era um clamor por aquilo que Deus queria fazer, por quem, ele era. O homem sentia que algo diferente – o começo da humildade. Mas justamente a natureza desse sentimento impedia-o de ver o que era.

O homem havia esquecido de si mesmo e descoberto seu desejo por Deus. Não encontrou Deus de imediato, mas tinha esperança – esperava que pudesse experimentar aquilo pelo que sua alma ansiava mais profundamente.

Então, seus olhos se abriram e ele viu água fresca borbulhando de uma fonte no deserto de sua alma. Era um novo sonho. Podia ver seus contornos tomarem forma. Era um sonho de conhecer a Deus verdadeiramente e de revelá-lo num mundo desagradável. O sonho adquiriu um enfoque específico; o homem viu de que modo poderia conhecer a Deus e revelá-lo a outros de forma só sua e de mais ninguém. Foi como voltar para cada.

Percebeu, no mesmo instante, que seu poder de falar a outros em nome de Deus e em meio à vida desagradável deles dependia de capacidade de falar do meio de seus dissabores. Nunca antes havia se sentido grato por suas dificuldades.

Seu sofrimento tornou-se para eles, uma passagem para o coração de Deus. Compartilhou a dor de Deus em seu grande projeto de redenção. Ao sofrer junto com Deus por uma mesma causa, o homem sentiu-se ainda mais próximo do Senhor.

Um novo pensamento lhe ocorreu. “Unir-me-ei a quaisquer força que estejam em oposição à raiz desse desprazer. Aliar-me-ei à bondade contra o mal. Não esperarei até ver mais claramente; o serviço que minhas mãos encontrarem. No entanto, permanecerei perto da minha fonte. Minha alma tem sede. Uma vida agradável não é água para minha alma; aquilo que vem de Deus – quem quer que seja Deus – isso sim, é a única e verdadeira água. E ela me basta”.

O homem adorou a Deus e Deus se agradou dele. Assim, Deus manteve a água borbulhando da fonte para a alma do homem. Quando o homem não bebia todas as manhas dessa fonte ou não voltava todas as noites para saciar-se outra vez, sua sede tornava-se insuportável.

Algumas coisas em sua vida melhoraram, enquanto outra não mudaram. Outras pioraram.

Mas o homem possuía novos sonhos e eram sonhos maiores do que uma vida agradável. Encontrou a coragem para busca-los. Tornou-se um homem esperançoso e sua esperança trouxe consigo a alegria.

Deus estava contente. E o homem também.





Larry Crabb
(introdução do livro - Sonhos despedaçados)

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