Essa semana tenho lido, visto e experimentado o despertar das fantasias, sonhos e utopias e o encontro com a realidade da vida. Numa entrevista a SuperInteressante, Luc Ferry, filósofo francês do qual li e recomendo "Aprendendo a viver", destilou um positivismo para mim inédito com o fim das utopias no mundo ocidental. Em suma, ninguém mais no ocidente é capaz de, como no passado, dar a sua vida por uma causa, país ou Deus, pelo menos de livre vontade. Os ataques terroristas às torres gêmeas marcaram a cisão do ocidente com esse tipo de atitude associando-a definitivamente a grupos fundamentalistas islâmicos ou não. As utopias existem, a sociedade não progride sem projetos de futuro, mas esses projetos estão cada vez mais dependentes do bem estar individual dos que neles se engarjam. Não se entra mais numa guerra, pelo menos no ocidente, sem questionar os motivos da mesma. O trauma com o 11 de setembro mobilizou os americanos a mandar tropas para o Iraque, hoje a manutenção das mesmas é questionada duramente pela desconfiança (ou certeza) dos motivos econômicos por detrás dessa história. Ninguém quer morrer por isso!
Apesar de tudo isso o olhar de Ferry é extremamente otimista com tudo o que falei acima. Isso por que, segundo ele, nunca amamos tanto a nossa familia como agora, e em particular os nossos filhos. Houve épocas onde as crianças eram abandonadas a sorte por motivos econômicos, guerras, entre outros. Hoje, nos comovemos com o caso Isabela e com qualquer violência feita a crianças pois não admitimos qualquer atitude semelhante com os nossos filhos. Explicada assim, diz o filósofo, esta é uma preocupação ou mudança de valor relativamente recente na história da humanidade. O fim das utopias no ocidente está fazendo o homem ocidental dar mais valor ao que realmente tem valor, ou seja, pessoas, os seus, enfim, gente!!!!
Pensando dessa forma, poderiamos analisar o que tem ocorrido na esfera pessoal, por exemplo, nos relacionamentos amorosos. Nunca o número de separações e divórcios foi tão grande só que o de casamentos, se contarmos com os não oficiais, não diminuiu. Ou seja, as pessoas continuam se apaixonando e buscando serem felizes ao lado de alguém só que não se permitem mais ficar numa relação onde esse ideal não seja alcançado. De fato, idealizamos não só a relação mas a própria pessoa com a qual nos relacionamos e queremos que ela satisfaça nossas projeções. Quando isso não acontece ela perde a graça. "Ela não é como imaginei!". Sim porque não se casou com alguém real. O amor só é amor quando aceita o outro como ele é. Com o tempo aprendemos que estas frustrações só acontecem quando a fantasia, prima irmã das utopias no campo pessoal, toma o lugar da realidade por conta da cegueira momentânea causada pela paixão. Claro que esse momento pode durar anos ou alguns meses, mas é suficiente para unir duas pessoas que só vão se conhecer quando ele acabar.
O bom nisso tudo, porém, é que quando abrimos mão da ilusão em prol da realidade, sem lançar mão do amor, nos imbuímos da missão de conhecer e amar pessoas reais. Nos apaixonamos sim, mas com a consciência de que aquela pessoa tem defeitos e coisas que podem não realizar nossas espectativas, mas mesmo assim é muito bom estar ao seu lado. Então alimentamos a paixão meio que propositalmente para deixarmos de ver essas coisas, mas agora de forma diferente, sabendo que elas existem! A frustração é trocada então pela compreensão. Por isso os novos laços, feitos sob essa base, são sempre mais fortes e duradouros.
Estou com essa visão otimista da vida. Nunca a consciência do amor pelos meus filhos me foi tão real e nunca me senti tão preparado para amar uma mulher como agora. A experiência me fez gostar da realidade, eu que, confesso, sempre fui dado a fantasia. Essa realidade é algo que tenho aprendido a transformar, e com a ajuda de Deus, vamos a construindo pouco a pouco, a partir dos nossos sonhos.
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