Resolvi ter um blog para falar da vida como eu a vejo, em prosa e verso, sempre ...
Friday, October 29, 2010
A fórmula da Felicidade - I
A felicidade, essa idealização que fazemos e pela qual acordamos todos os dias tem sido a grande promessa de várias entidades, sejam elas físicas ou não. Cito alguns exemplos:
O mercado – esta entidade, composta por todos os entes econômicos que disputam a nossa remuneração, nos vende, literalmente, a idéia da satisfação desse vácuo interior com substitutos relacionais. Explico, muito embora a sensação de felicidade esteja mais associada ao ser, ou a construção do ser (ou self), o mercado ameniza esse processo associando essa sensação ao ter. Assim, se você tem você pode comprar coisas que lhe deixem feliz até que o tempo daquela satisfação se esgote e você tenha que comprar algo mais, e depois outra coisa num ato contínuo e sem fim, que alimenta o próprio mercado.
"Numa sociedade de compradores e numa vida de compras, estamos felizes enquanto não perdermos a esperança de sermos felizes" – Zygmunt Bauman
Essa felicidade, vendida pelo mercado, traz no bojo algumas mensagens que contaminaram a nossa sociedade como um todo. Por exemplo, você não é o que você é, mas o que você usa ou tem. São os títulos e o dinheiro que lhe farão importante, lhe darão a atenção e o amor que necessita, ou pelo menos o sexo na pior das hipóteses. Mais ainda, as relações, como todas as de consumo, são utilitaristas e não prevêem grandes compromissos entre as partes. Assim, os amores tornam-se líquidos e breves, ou seja, a menos que a satisfação atual da relação se mantenha por si não se fará muito para mantê-la, afinal, nada é pra sempre e relação boa é a que me serve enquanto me serve, como tudo que consumo.
A religião – as organizações religiosas, cada uma com sua proposta de ligação com o transcendente, com Deus, seja lá como é definido por cada uma delas, têm também as suas receitas de felicidade intimamente relacionadas a algum tipo de conexão espiritual.
Assim como o mercado essas organizações cobram seu preço para viabilizarem esse santo graal; pode ser um sacrifício físico, a abstinência de um prazer, a negação de si mesmo, a anulação do desejo, o isolamento, enfim, qualquer outra coisa imposta como disciplina para se alcançar um elevo espiritual, uma integração com o divino, o desenvolvimento da vontade sobre a ansiedade e a concupiscência gerando em última instância paz interior, o grande segredo da felicidade para a maioria das propostas religiosas. Algumas porém, muito influenciadas pelo mercado aceitam o dinheiro também como facilitador do céu, fazendo o caminho estreito mais largo para os que tem mais "a dar".
Sendo bem objetivo, pelos propósitos desse texto, o trilhar desse caminho é individual, no entanto, a associação coletiva é quase inescapável trazendo para o religioso uma identidade, e expectativas relativas a mesma. Assim como no mercado você é o que tem, nesse mundo você é o que professa ou o que o grupo que participa professa. Para esses grupos a infelicidade individual é um pecado pode ser mal vista já que todos que participam desse grupo deveriam ser, em tese, felizes pois partilham da fonte da felicidade. E assim, quem adota esse caminho, muitas vezes reduz a sua construção dessa felicidade individual àquilo lhe é "vendido" pelo grupo que participa. Como a uma forma essa pessoa se "conforma" a forma e o jeito do modelo espiritual da religião que adotou. Nem sempre essa forma se encaixa plenamente e aí sobram duas alternativas; a hipocrisia ou o abandono daquele modelo.
A Paixão – apesar de vir do grego pathos, que significa excesso, catástrofe, passagem, passividade, e sofrimento, a paixão é uma das grandes vendedoras de felicidade no mundo. O apaixonado sofre e vicia-se nesse sentimento de forma que sem o mesmo, a vida torna-se menos colorida e mais sem graça. As paixões parecem dar sentido a vida. Do mesmo modo que o domingo é aguardado com ansiedade pelo apaixonado por futebol, o apaixonado pelo trabalho recolhe-se cedo nesse mesmo dia para que a segunda lhe chegue logo.
Isso sem falar nas paixões românticas, platônicas ou não. Essas tiram o sono, a fome e o próprio juízo. São egoístas e possessivas por natureza pois dizem respeito a vontade de ter o outro pra si. Ele é meu e ela é minha e de mais ninguém! O problema é quando os dois fazem desse desejo uma obsessão fazendo a vida girar em torno dessa relação como se ela não estivesse cheia de projeções e ilusões. A paixão que une os casais se não alimentada com boas doses de realidade e liberdade vira uma prisão e uma fuga tanto quanto são todos os vícios pois mexe com algo poderoso em nós que é o prazer, e em doses cavalares, muito embora seja diferente.
Os vícios como os relacionados ao sexo, à bebida, compras compulsivas, comida ou às próprias drogas, não vendem felicidade. Antes eles vendem uma fuga da infelicidade, o que é bem diferente, por meio do prazer como anestésico da dor de uma falta ou de um vazio interior. A paixão, porém, vende a ilusão que a felicidade é tê-la, senti-la, vive-la de forma a mais intensa possível. E ficamos todos a babar por esse convite! Como ela não dura muito, senão se apegar a realidade, a ordem é ser feliz enquanto ela dura.
Mas o que seria então a felicidade? Como obtê-la? Se o que nos vendem os entes acima citados não nos satisfazem plenamente o que falta naquilo que oferecem?
Deixo essas perguntas para o próximo texto, até para lhe dar mais tempo para refletir nelas.
Até lá.
Ido Alves
Subscribe to:
Post Comments (Atom)

No comments:
Post a Comment