Resolvi ter um blog para falar da vida como eu a vejo, em prosa e verso, sempre ...
Saturday, October 09, 2010
O egoísmo dos amantes
"Somos egoístas graças a Deus"; assim dizia a minha orientadora de mestrado para reforçar a idéia de que somos o centro no qual giram as nossas decisões de vida. Apesar da frase ser teologicamente uma heresia, já que o Deus cristão é justamente a antítese do egoísmo, ela ressalta a nossa tendência natural de buscar a satisfação do próprio eu ou do ego ante as opções que nos aparecem na vida.
Queremos ser felizes e isso normalmente significa atender as demandas do nosso coração. Aí, nesse campo, encontramos toda sorte de paixões que nos demandam o atendimento imediato. O problema é que o nosso coração, quando não atendido, nos traz um sentimento de insatisfação e infelicidade do qual fugimos! No entanto, nem sempre conseguimos ou mesmo devemos atender as demandas ou desejos que temos. Essa mesma professora que tive, porém, nos dizia que tínhamos dentro de nós uma criança que, se não atendida nas suas necessidades, nos gerava um estado de infelicidade. Quando a atendemos propriamente nos sentimos felizes. No entanto, como toda criança ela precisa do papel do pai dando-lhe limites senão não crescerá nunca!
Caio Fabio em uma de suas maravilhosas pregações disse certa vez:
"A alma do homem não cresce sem dor, porém, não subsiste sem alegria"
Vivemos nessa corda bamba dialética entre satisfazer nossas vontades e sermos "felizes" ou impor-nos limites agindo de forma racional quando o nosso emocional não concorda com a nossa razão. Evitamos a dor e o conflito quando os mesmos nos são inevitáveis mesmo que sejam, na realidade, necessários para o nosso crescimento como seres humanos.
Diante desse quadro introdutório, uma questão me instigou a escrever esse texto: qual a relação entre a paixão e o egoísmo?
A resposta a essa pergunta é simples e direta: toda pois a paixão é egoísta por natureza! Ao contrário do amor que visa o bem do outro a paixão visa ter o outro pra si, não importando se esse relacionamento vai ser bom pra quem quer que seja. Nesse sentido a paixão é o mais irracional dos sentimentos, nem por isso o menos desejado.
Flavio Gikovate, cuja obra literária explora os aspectos psicológicos das relações amorosas e afirma em O mal, o bem e mais além – MG Editores, que as relações amorosas são compostas por associações entre egoístas e generosos. Muito embora reconheça essa dependência e a atração exercida entre os opostos, entendo que não existe nenhuma generosidade ou altruísmo nas relações passionais. A cobrança do interesse e presença do objeto da paixão na vida de forma exclusiva e intensa é comum a ambas as partes. Mesmo a parte mais generosa da relação não medirá esforços para mantê-la a despeito dos interesses reais da outra parte. Nesse sentido, ao contrário do amor, a paixão gera dependência e não liberdade!
Quando queremos realmente alguém, não nos importamos com as opiniões dos outros sobre aquela pessoa ou mesmo se o momento é adequado para que iniciarmos um relacionamento com a mesma. Queremos viver aquilo o quanto antes. Carpe Diem é o lema do apaixonado. Como o juízo sobre o outro é afetado pela paixão isso, em alguns casos, torna-se perigoso.
Paulo e Diana se conheceram numa sala de jogos na internet. Inicialmente parceiros de jogo, por meio de um chat começaram a se conhecer e trocar intimidades. Com o tempo, a amizade inicial tomou outros contornos. A admiração mútua deu lugar ao encantamento amoroso. O problema é que Paulo já é casado e ama a mulher com quem já vive a mais de 30 anos. Angolano descendente de portugueses, Paulo vive uma fase da vida onde esses sentimentos tomam uma dimensão de novidade quebrando-lhe a rotina e trazendo uma sensação de juventude para um homem, embora bem conservado, já sexagenário. Diana por sua vez, sempre se interessou por homens mais velhos e é 30 anos mais nova que Paulo. Ela é brasileira e a distancia e a admiração por Paulo incentivou o contato freqüente com o mesmo apesar do estado civil do seu então amigo; Não demorou muito para que aquilo tudo tomasse dimensões de um conflito com todos os ingredientes de uma paixão e todas as culpas associadas a um caso assim. Para encurtar a história o desfecho desse caso foi que o casal, mesmo sem nunca terem uma só oportunidade de se encontrarem fisicamente, se envolveu amorosamente num nível que tiveram que decidir se viveriam aquilo até as últimas conseqüências e acabaram desistindo, não sem experimentar a dor e a frustração inerentes a decisão tomada para a alma de cada um. De um lado a razão lhes convencia de que tomaram a decisão correta preservando de um lado, a relação conjugal do Paulo que já sofria abalos por aquele envolvimento e que lhe era essencial na vida, e o do outro a passionalidade de Diana que não o dividiria com ninguém nem se submeteria ao papel de outra na vida do seu amado. Do outro lado a fantasia de viver um grande amor, provocada pelo envolvimento dos dois, deixou um vácuo a ser preenchido quem sabe por uma nova paixão ou a retomada de amores antigos.
A história acima, onde foram alterados detalhes e claro os nomes, de fato aconteceu e ilustra bem o que estamos discutindo aqui. Em primeiro lugar essa história não serviria como roteiro de nenhuma novela, pois a paixão aqui não venceu a razão, como ocorre nas estórias e romances de TV. Isso talvez tenha acontecido devido às dificuldades que os dois e o contexto virtual no qual estavam inseridos, mas o fato é que acabaram por dar razão a razão mesmo a contragosto. No entanto, após isso tiveram que conviver com a angústia de matar a vontade de ter intimidade mesmo que online. Por que isso? Por que para a paixão não interessa o que é melhor para o outro, interessa ter o outro pra si. Não interessam a perdas decorrentes, mas o que se possa ganhar de prazer no presente. Interessa viver o momento e só. E isso tudo com base numa fantasia criada pelas nossas mentes para atender o nosso coração. Isso é ou não egoísmo puro?
Sou contra a paixão? Claro que não. Ela tem o seu papel de unir os casais. No entanto é preciso entender sua natureza egoísta para não confundi-la com amor. Ela vai sempre tentar nos dominar e determinar nossas ações. Faremos de um tudo para estar com quem "amamos", no entanto, quando essa pessoa, por um motivo ou outro, ficar impossibilitada de nos dar o que queremos dela nos voltaremos contra ela com a mesma intensidade que nos aproximamos da mesma.
Onde quero chegar com isso tudo? Na minha vida amorosa por muito tempo fui acusado de egoísmo. Nesse tempo buscava encontrar a mim mesmo e, de fato, nessa busca minha tendência ao egoísmo era natural e essa atitude me custou coisas preciosas, mas estava atrás das verdades e mentiras escondidas nos meus sentimentos. Com o tempo eu fui vendo que mesmo aquelas pessoas capazes de doações maravilhosas de si em favor do outro, tinham o mesmo comportamento egoísta quando o assunto era atender as demandas da paixão. E assim, de fato, acabei dando razão à minha professora que o nosso egoísmo é universal, pelo menos quando estamos falando do encantamento amoroso ou da paixão entre os casais.
O que fazer para equilibrar essas coisas e gerar um sentimento de liberdade onde aquela pessoa com quem queremos estar tenha certeza da nossa paixão, mas não se sinta sufocada ou presa às nossas demandas? A resposta pra mim também é simples: amá-la! Quem ama dá espaço para que a pessoa esteja com você pelo prazer de estar e não por qualquer obrigação. Quem ama, sabe entender quando a hora de viver a relação que se quer ainda não chegou para o outro e respeita esse tempo. Quem ama não invade a vida do outro sem pedir licença, vai fazendo parte da mesma naturalmente ocupando os espaços que lhe são dados, sempre visando o bem do outro e não tão somente o seu. A necessidade de ser amado daquele que ama definirá a natureza do vínculo, mas nunca anulará o amor que se tem.
Espero ter lançado luzes sobre o que acredito ser um caminho menos egoísta e mais feliz para as nossas relações amorosas. No entanto, cabe a cada um escolher o que se quer viver e assumir as conseqüências dessa decisão. Com amor, porém, tudo fica mais claro e o caminho mais iluminado é sempre mais seguro.
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