Tuesday, November 02, 2010

A fórmula da felicidade III

Comecei a escrever sobre o tema da felicidade como uma necessidade de por pra fora um turbilhão de idéias e convicções que explodiram a medida que li a introdução do livro de Zigmunt Bauman – A arte da vida. Os que lerem o livro irão reconhecer algumas das idéias nele contidas no primeiro texto, mas não todas nem da forma como as expus. Minha intenção é realizar uma síntese a partir das minhas reflexões sobre o assunto a partir do que leio e de como interpreto o que leio.

Nesse texto, sequência do anterior, e que já antecipo não será conclusivo, convido você a fazer a mesma coisa. Refletir acerca da felicidade a partir do que ler nos próximos parágrafos.

Concluímos o texto anterior com algumas perguntas:

O que é felicidade? Como obtê-la?

Vamos tentar avançar na resposta dessas perguntas partindo de um argumento filosófico, o de que a felicidade é uma construção individual. Assim sendo, a felicidade sob o ponto de vista de uma Madre Tereza de Calcutá ou de um Gandhi, por exemplo, terá diferenças significativas com a da Madona, Angelina Julie ou qualquer outro ícone pop atual. Não obstante, existirão traços comuns entre estas construções, frutos das escolhas tomadas por cada uma das pessoas citadas. O que estou tentando dizer é que a mesma atitude ou vivência relacional traz sentimentos e sensações semelhantes em todos nós, por exemplo, uma ajuda sincera ao semelhante gera uma satisfação universal em qualquer ser humano que contribui para a felicidade do outro. No entanto, abrir mão dos próprios interesses imediatos, e do seu tempo pra ser simples, e fazê-lo pode ser uma decisão difícil para muitos de nós.

Para entender o que significa felicidade, precisaremos primeiramente definir se ela é, para nós, um estado de espírito, ou a soma de momentos ou episódios felizes.

Se optarmos pela primeira opção estaremos na companhia dos filósofos clássicos. Aristóteles, por exemplo, acreditava que este estado era obtido pela obtenção de bens "internos" e "externos", cuja lista teria fundamentação empírica e poderia ser relatada por todos os cidadãos de Atenas, como: bom berço, muitos amigos, bons amigos, riqueza, bons filhos, saúde e por ai vai. Essa é a mesma concepção de quem pensa hoje, se eu tivesse isso ou aquilo seria feliz. O fato é que o sentimento de felicidade ou contentamento com a própria vida, por aqueles que o professam, em sua maioria independe da lista de bens que possuem. Existem pessoas ricas de tudo no mundo e pobres de felicidade e vice-versa. No entanto, a concepção aristotélica de um estado de felicidade contínuo e permanente, a partir do alcance de determinado patamar, acompanhou o pensamento humano ao longo dos séculos e é o prometido pela maioria dos discursos religiosos. Contemporaneamente esse "estado de felicidade" tem sido trocado pela "busca de felicidade", nas palavras de Tocqueville, "a felicidade é uma qualidade que se retira diante deles sem sair de vista, e ao se retirar acena para a busca. A cada instante eles pensam que conseguirão capturá-la, e a cada vez ela escorregará por entre seus dedos" (Alexis de Tocqueville, Democracy in America, New York, Harper,1988, p. 538). Em suma, o casal tem tudo pra ser feliz, casa própria, carro, bons empregos, filhos maravilhosos, ótimo padrão social, enfim tudo que todos parecem buscar a vida toda e, no entanto, se separam, pois estão infelizes. Falta-lhes a busca que o mantinham vivos. Quando chegaram onde miraram chegar permanecer ali é um tormento de monotonia. Tocquevilhe, na mesma análise sobre a sociedade americana, complementa; " essa é a razão da estranha melancolia que frequentemente assombra os habitantes das democracias em meio a abundância, e daquele desgosto pela vida que por vezes toma conta deles em condições de calma e tranqüilidade".

Fico imaginando que para o homem moderno a idéia de um céu, conforme retratada no livro de Apocalipse, pode parecer pouco atrativa. Diriam: Tá bom, quis a vida toda chegar aqui mas será que não tem um outro lugar menos tranqüilo (e mais emocionante) pra gente ir nos finais de semana pra variar? O céu só é maravilhoso, para ele, enquanto não se chega lá. Como disse Cazuza: "O tédio é o sentimento mais moderno que existe". No céu, esse homem, dado que seu coração (e sua essência) não mude, terá saudade da terra ou irá querer fazer algumas modificações no cotidiano celestial.

Essa insatisfação contínua nos é típica e é o motivo principal dos nossos esforços de construção e desenvolvimento humano. Corremos, porém uma corrida cuja a linha de chegada é conhecida e pouco atraente, a não ser para os que a encaram com fé na continuidade da caminhada após cruzarem a mesma, fazendo da própria corrida um fim em si, de forma que tolo é quem não aproveita para apreciar a paisagem durante a jornada.

Na contramão dos que sonham com o estado de felicidade permanente estão os que se contentam com uma sucessão de "momentos felizes". Estes são mais sensoriais e optam pelo transitório, mas que se possa usufruir hoje, que o eterno que nunca chega ou chegará, pelo menos para eles. Assim, relacionamentos intensos mesmo que curtos são preferíveis que relações duradouras, mas mornas. Não se tem intenção de construir nada mas aproveitar cada segundo da vida como se fosse o último. Muito embora sejam cônscios da brevidade dos prazeres que buscam, preferem gozá-los que passar a existência numa busca pelo eterno. É a forma de pensar adotada pelo autor de Eclesiastes, o rei Salomão, ao dizer: "Disse comigo: vamos! Eu te provarei com alegria; goza, pois, a felicidade; ... tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei meu coração de alegria alguma ...". No entanto, a conclusão dele sobre essa busca é a mesma que teve com relação a de que a felicidade viria pela construção de algo permanente, uma grande obra por exemplo, de que tudo no final "era vaidade e correr atrás do vento" – Ec 2.

Depois dessa afirmação pessimista desse expoente bíblico que praticamente esgotou todas as formas de busca humana de significado do que vem a ser felicidade, inclusive a própria busca de sabedoria, ficamos num impasse. A felicidade é uma meta individual comum a todos nós, seja ela explicitamente declarada ou não. No entanto, somos avessos a pontos de chegada e nos sentirmos contentes com o que temos, ao mesmo tempo que gozar a vida sem um propósito claro, um sonho, um objetivo, nos parece irracional e fútil para a maioria de nós, mesmo que ao alcançá-lo precisemos de outro, já que o anterior perdeu sua significância.

Sem querer concluir, como falei antes, mas tentando fechar esse texto, me parece que a felicidade está mais próxima de quem consegue entender e aceitar essas duas realidades da vida. Primeiro a de que nada que conquistemos nos fará mais felizes que o ato de conquistá-las e todo o processo aí envolvido e, segundo, que nada estragará mais a nossa felicidade que a ansiedade com relação ao que não se tem. Saber gozar a vida dentro das suas possibilidades e relacionamentos atuais é uma arte. Nesse espetáculo que é a vida humana, em sua breve passagem por esse mundo, somos ao mesmo tempo autores e atores principais das nossas próprias peças, que escrevemos com as nossas ações e sentimentos do dia a dia. Nossas obras poderão influenciar e ajudar muitos nas suas jornadas e, como todo artista, nos deliciaremos com o aplauso, como uma confirmação de que fizemos bem o que tínhamos de fazer. Ser feliz, porém, é saber dar importância ao que é importante, que normalmente não custa mais que uma atitude, e através disso trazer a outros, e não só a si próprio, essa sensação de felicidade. Assim, o contentamento do ator advindo do aplauso vem também porque o público ficou feliz com a sua atuação, ou seja, ele contribuiu para a felicidade da platéia, nem que seja por um momento. Este momento, porém é único para ambos e vale toda a pena.

Façam as suas escolhas, mas sejam felizes fazendo-as! A responsabilidade sobre a sua felicidade está nas suas mãos.



Belém, 02/11/10


 

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